

Um Vero Inesquecvel
Elizabeth Craft

TRADUO: Beth Vieira

Um Vero Inesquecvel
Elizabeth Craft

 
"Josh e eu vivemos uma paixo arrebatadora no vero. Mas agora descobri que ele tem namorada. Como vou consegui-lo de volta?" 


Cada uma que o corao agenta

Ele era lindo - ainda mais bonito do que a lembrana que eu tinha.
- Sara? - Ele chamou. Aquilo era obra do destino, s podia ser. Que outro motivo nos levaria para o mesmo colgio?
- Minha me foi para o Japo - falei, abobalhada. Como se isso explicasse alguma coisa. - Vim para c passar o ano com meu pai.
Josh sacudia a cabea para frente e para trs, repetidas vezes, apatetado, sem entender nada.
- Sara... eu no acredito. - Deu um passo adiante e apertou minha mo.
Meu corao saiu fora do compasso.
- Eu quis ligar e dizer que vinha pra c - balbuciei. - Mas no tinha o seu endereo.
- Pois , eu sei... - E, com a mesma rapidez com que instantes antes tinha agarrado minha mo, largou-a, frouxa e abandonada.
- Josh?
Ele espiava por cima de mim, os olhos azuis alarmados.
- Raleigh - ele disse.
Virei o corpo. Raleigh estava parada bem atrs de mim. E sorrindo para Josh.
- Ei, amor! - ela exclamou toda feliz. - Voc jogou superbem!
- Obrigado. - Josh afastou-se de mim como se tivessem acabado de anunciar o meu contato com o vrus Ebola.
Horrorizada, vi Raleigh atirar-se nos braos estendidos de Josh.
- Oi Sara - Raleigh me disse, depois de finalmente desgrudar dele. - Voc j conhece o meu namorado? 
Desejei pela dcima vez ter plantado, naquela manh, um explosivo qualquer no motor do monstrengo amarelo que iria arrebatar Josh de mim (ou, pelo menos, do estado 
do Maine e de meu alcance imediato) por tempo indeterminado. Se aquele nibus enorme enguiasse por algum motivo, eu teria mais alguns minutos, horas, quem sabe 
dias para ficar com ele.
Infelizmente, sempre fui uma cidad conscienciosa, cumpridora das leis e no cometeria o desatino de destruir um nibus escolar inteiro. Sendo esse o caso, o nico 
recurso foi me dependurar no pescoo de Josh, como se a pura fora de vontade pudesse nos manter juntos para sempre.
- Esse vero foi muito bacana, Sara. Voc  uma garota incrvel.
- Obrigada - respondi em tom lgubre, fitando o azul intenso daqueles olhos. Como viver dali em diante sem o esplendor daquela cor? - Voc tambm at que  bem legal 
- consegui sussurrar.
- Ah, Sara. - Os braos de Josh me apertaram ainda mais forte e senti nas costas o afago de suas mos vigorosas.
Quase desejei que nossa ltima noite no tivesse sido to maravilhosa. Josh e eu tnhamos escapulido de nossas cabanas, como de hbito, e remando pelo lago Vermilion 
at nossa ilha favorita. Ele me surpreendeu com um piquenique noturno feito de morangos e cidra espumante (at hoje no sei onde arrumou o falso champanhe). Trocamos 
morangos e beijos e fizemos dezenas de pedidos s estrelas cadentes que riscavam o cu de veludo. Clich meio batido? Sem dvida. Romntico? Decididamente.
Josh e eu tnhamos passado a noite quase toda em claro, conversando e rindo, entre beijos e cochichos. Ao pegarmos o barco para voltar ao acampamento Quisiana, o 
sol j ia subindo por entre os pinheiros. Nunca lamentei tanto o despontar de um novo dia. 
No entanto, era preciso encarar o fato de que Josh estava a poucos minutos de tomar aquele horrendo nibus amarelo. Um pouco antes, ele, eu e todos os conselheiros 
juniores tnhamos nos reunido na cantina e feito um caf da manh superespecial para a turma: panquecas, waffles, bacon e lingia. Chegamos, inclusive, a levar 
todas as mesas para fora, para que a crianada comesse ao sol. A manh toda, fingi que se tratava apenas de mais uma refeio. Mas no podia continuar naquele meu 
mundo de fantasia. Acabara. Tinha chegado a hora do adeus... pelo menos por enquanto.
- Josh. - Escondi meu rosto em seu peito, sem dar a mnima ateno para as fartas evidencias de que Gunnie, a diretora do acampamento, me fuzilava com os olhos de 
seu posto na cabeceira da mesa. H momentos que pedem moderao e momentos que exigem abraos em publico. Aquela manh, a ltima que Josh e eu passaramos juntos 
por um bom tempo, sem sombra de dvida encaixava-se nesse ltimo caso.
- Estou falando srio - Josh murmurou entre meus cabelos. - Voc  uma em um milho. Dois milhes. Um bilho.
Balancei minha cabea em silencio, louca para ouvir aquelas trs palavrinhas mgicas.
- Voc tambm, Josh. Eu... te amo. Ai, meu Deus. Ser que aquelas trs palavras tinham escapado de minha boca? Eu te amo. Era verdade. Uma reviso mental imediata 
confirmou a indiscrio.
Josh suspendeu meu queixo, forando-me a olh-lo de frente.
- Eu tambm - murmurou.
Tudo bem. Josh no tinha exatamente pronunciado com todas as letras o famoso "eu-te-amo". Mas eu j lera uma boa quantidade daquelas revistas que dizem "como-arrumar-namorado-em-um
a-semana" para saber que os meninos no so l muito craques na hora de declarar amor como Romeu e Julieta. No precisava ouvir palavras exatas. O simples fato de 
saber que Josh sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele encheu minha alma com um calor arrebatado. 
 
- E a gente vai se ver em breve - acrescentei. - Talvez eu consiga passar o Dia de Ao de Graas com o meu pai. - Ele tinha se mudado havia pouco para uma cidade 
muito pequena na Flrida, e Josh havia me garantido que no ficava muito longe da costa, onde ele freqentava o colgio.
Atrs de mim, escutei o estrondo da buzina de um nibus. Meu estomago foi parar nos ps, assim que olhei para trs. O primeiro deles estava pronto para partir: campistas 
e conselheiros iriam embora em diferentes levas, dependendo da hora dos respectivos vos. Eu s iria no fim da tarde, quando minha me chegasse para me levar de 
volta a Portland. O motorista do nibus botou a cabea para fora. Parecia mal-humorado e tremendamente impaciente.
- Vamos l, meus pombinhos! - o sujeito berrou. - O tempo no pra s porque vocs dois ainda no esto prontos para partir!
- J estou indo! - Josh gritou de volta, virando-se outra vez para mim. - Parece que estamos com uma platia e tanto.
Olhei em volta. Josh tinha razo. Dezenas de pares de olhos nos fitavam em seus assentos do nibus, e um nmero ainda maior de campistas acompanhava nossa despedida 
nas mesas do caf da manh. Senti o rosto pegar fogo.
- Preciso ir andando - Josh disse.
Concordei em silncio, enquanto ele dava o passo que o poria dentro do nibus. Com um golpe de sorte me lembrei e gritei:
- Espere um pouco! Josh! Espere!
Ele se virou:
- O que foi?
-Os endereos! Nmeros de telefone! - Lidar com o lado prtico da vida nunca foi meu forte. - Ns no temos como entrar em contato um com o outro!
Josh largou a mochila e estapeou a testa com a palma da mo:
- Como fomos esquecer de uma coisa dessas? - perguntou. Depois sacudiu a cabea. - Tudo bem, eu sei como. 
 
No havia necessidade de elaborara em torno dessa afirmao. Dezenas de ocasies me vi  beira de lhe pedir os dados bsicos. Mas, de uma forma ou de outra, minhas 
solicitaes de endereo e telefone acabavam sempre perdidas num novo beijo ardente.
Puxando um recibo todo amassado e um marcador de feltro da mochila, Josh disse: - Certo, me d seu endereo.
- 160 Little Hill Road - comecei. - Portland, Ma...
- Vamos partir j, Nelson - um dos conselheiros gritou do nibus. - E  j mesmo!
- Rpido - Josh falou. - Me d o resto.
- Portland, Maine, 04101 - encerrei mais que depressa. - E meu telefone  207-555-6251.
Josh ps a tampa no marcador e enfiou o recibo no bolso de trs de sua Levi's desbotada:
- Vou sentir a sua falta.
- Tambm vou sentir a sua - respondi, com um bolo imenso na garganta.
Josh inclinou-se, roou os lbios de leve nos meus e me deu um ltimo aperto caloroso de mo:
- A gente se v em breve. Tenho certeza.
Depois, virando-se, saltou para dentro do nibus, onde o motorista nos vigiava de cara feia por trs do vidro do pra-brisa enorme e um tanto sujo. Vi quando os 
ombros, perfeitamente esculpidos, de Josh desapareceram dentro do veiculo, depois espichei o pescoo para v-lo avanar com agilidade pelo corredor estreito. O motorista 
buzinou duas vezes. E eles se foram.
S depois de o nibus j ter sumido na longa estrada de terra me dei conta de que no tinha pegado nem o endereo nem o telefone de Josh. Tudo o que sabia  que 
ele morava na Flrida, em uma cidade Mason's Cove. Ou seria Mecca Beach? No, espere. O nome da cidade era Cove's Corner. Ou no. Aah!
Suspirei fundo, depois dei de ombros. Josh me ligaria  noite, direto do estado ensolarado - esse  o apelido da Flrida. Ou no mximo no dia seguinte. Anotaria 
todos os dados dele em um lugar seguro e a escreveria as cartas mais compridas, engraadas e romnticas do mundo. Depois disso, seria apenas uma questo de tempo 
at fazermos planos concretos para nos vermos de novo. 
 
12 de agosto
Querido Josh,

Oi! Estou com tanta saudade. Pronto, essa afirmao de suma importncia j foi feita. Agora posso continuar esta carta com... o qu? No sei ao certo o que quero 
lhe dizer. Mal posso esperar para receber sua primeira carta. Estou to ansiosa para falar com voc que resolvi me adiantar e comear a lhe escrever sempre que me 
der vontade. A, depois, junto tudo e envio assim que tiver seu endereo.
O vero foi to incrvel. Antes de conhecer voc, nunca pensei que pudesse levar algum a serio. Em geral, namoro um ms e depois fico torcendo para que o carinha 
suma. Mas com voc... no sei.  como se fosse impossvel descobrir tudo o que h para ser dito. Poderia conversar com voc horas a fio sem me entediar nem por um 
segundo. Incrvel, no ?
Certo, estou ficando meio aucarada, de modo que vou terminar por aqui. Talvez nem chegue a mandar. Tudo o que eu sei  que estou morrendo de vontade de falar com 
voc. Ser que anotou certo o nmero do meu telefone?
Com amor,
Sara
P.S. O Maine no  o mesmo sem voc. 














Um

- Me, este vai ser o meu ltimo ano no colegial! - Minha reclamao tinha um bom motivo. - Voc no pode estar falando srio. Como voc me pede para mudar de escola 
uma semana antes do comeo das aulas?
- Recebi uma oferta irrecusvel.  a grande oportunidade da minha vida. - Mame deu um suspiro suave e inclinou-se na poltrona para me dar um tapinha maternal no 
joelho. - Desculpe ser assim to em cima da hora, mas at dois dias atrs a universidade no sabia se teria ou no dinheiro suficiente para me oferecer a bolsa de 
estudo.
Eu estava deitada no sof verde desbotado que toma uma parede de nossa sala de estar, fazendo beicinho h horas.  medida que os dias iam passando, sem que houvesse 
uma nica carta de Josh, meu pnico foi aumentando.
Tudo bem que o acampamento tinha terminado uma semana e meia antes. Ainda era cedo, mas eu achava que ele me escreveria assim que chegasse em casa. O problema devia 
ser do correio, muito provavelmente, ou ento a carta de Josh tinha se perdido em algum canto. Mesmo assim, essa espera era pura tortura.
Sem contar que ele ainda no tinha me ligado, o que s podia significar que, na pressa da despedida, no havia anotado direito o nmero do telefone. E, como o sobrenome 
de minha me era diferente do meu, no havia como me encontrar usando a lista telefnica.
Na verdade, eu tinha absoluta certeza que, naquele exato instante, Josh estava ligando para Gunnie implorando a ela o nmero do meu telefone. Eu j havia ligado 
para a diretora do acampamento (s que no tinha conseguido encontr-la). Como no houve jeito de lembrar o nome da cidade de Josh, no consegui descobrir o nmero 
de telefone pelo servio de informao. (Nota para mim mesma: prestar ateno da prxima vez em que o amor de sua vida disser o nome da cidade onde mora). 
Tinha passado por um momento de puro xtase quando encontrei o e-mail de Josh na internet, mas, depois de lhe enviar vrias mensagens sem obter resposta, percebi 
que devia estar falando com o Josh Nelson errado. Vai ter azar assim l longe.
Entretanto, pouco mais de dez minutos antes percebi que uma caixa de correio vazia no era meu nico problema. Havia um outro motivo totalmente vlido para a sesso 
especial de desnimo.
Japo. Minha me iria se mudar para o Japo. E eu, pobre de mim, teria de abrir mo de toda uma vida, inclusive das milhares de atividades planejadas para esse importantssimo 
ltimo ano de colgio, e comear tudo de novo em algum outro lugar. Sem falar que ficaria ainda mais distante do meu nico amor.
Atirei um brao sobre os olhos e suspirei to alto que minha labrador castanha, chamada Georgie, atravessou correndo as tabuas do assoalho e mergulhou a cabea em 
meu estmago.
- Tudo bem, pode arruinar minha vida - disse para mame, com minha melhor voz de mrtir. - Nada de muito importante.  apenas uma vida entre bilhes.
- Sara... - Mame parecia cansada. Eu sabia que aquele era o tom reservado para me sentir a pior filha do mundo. Como de hbito, deu certo. Eu estava um trapo.
 verdade que ela tinha passado sculos se preparando para aquele momento. Durante os trs anos anteriores, batalhara feito uma louca, praticamente tinha se mudado 
para a biblioteca pblica de Portland a fim de pesquisar a histria do Japo para sua tese de doutorado. Mas, como eu j tinha ouvido mais vezes do que seria possvel 
enumerar, uma pesquisa desse tipo s vai at certo ponto quando se est no Maine. Mame precisava ter acesso a obras bem mais detalhadas se quisesse terminar a tese 
apelidada de "O Monstro".
De repente, a Universidade do Maine lhe oferecera uma bolsa para ir estudar na Universidade de Tquio por um ano, com tudo pago. Entretanto, havia um pequeno probleminha, 
que era a minha prpria vida. Eu tambm tinha planos. Todos muito importantes. E nenhum envolvia uma mudana para Tquio. 
- Eu sei, eu sei. Voc deu um duro danado para chegar at aqui. Todo o sacrifcio, todo o tempo, todas as dores de cabea esto prestes a ser recompensados. E voc 
simplesmente no pode deixar passar essa oportunidade.
- Exato. - Mame parecia mais contentinha. E estimulada. - Este ano vai ser a realizao de um grande sonho meu.
A realizao de um grande sonho seu, pensei com meus botes. Enquanto isso, meu destino estava em vias de ser mudado para sempre. Meu formidvel ltimo ano no colgio 
Thomas Jefferson e toda e qualquer esperana de dar continuidade ao meu relacionamento com Josh tinham acabado de sair voando pela janela, com destino ao Japo.
No me falem da me (perdo pelo mau trocadilho) de todos os pssimos dias. Pela manh, eu tinha tido a infeliz idia de me oferecer como modelo no Ambience, tudo 
para conseguir um corte e um xampu de graa com a Sandy, e sara com o pior corte de cabelo de toda a minha vida (o que no significa pouco, tendo em vista experincias 
anteriores). E, claro, tambm no havia esquecido de que aquele era o dcimo dia sem notcias de Josh. Vamos pr um ponto final nos gloriosos e arrefecidos dias 
de vero. A vida  um enorme buraco negro.
E, para completar, minha me exibia aquela expresso de "eu-sei-que--duro-ser-criana-mas-fazer-o-qu".
- Fico na casa dos Golds - falei de repente. - Posso dormir no cho do quarto da Maggie. - O que no seria to mau assim. Uma festinha noturna de nove meses de durao 
ao lado de minha melhor amiga tinha grande potencial para ser divertida. Nem pensar em me mudar para o Japo bem naquele momento. Nem pensar.
- De jeito nenhum. - O tom materno foi decisivo. - Voc e a Maggie juntas dia e noite s dariam confuso. Com C maisculo. 
- Ah, qual , me! Isso so guas passadas. - Pelo visto, Maggie e eu jamais conseguiramos apagar da memria o dia em que decidimos pintar um gigantesco smbolo 
da paz no campo de futebol. Com creme de barbear. Ou a noite em que tomamos emprestado (e aqui eu enfatizo a palavra emprestado) o carro do pai dela para darmos 
um pulo a Nova York e assistir ao concerto do Hole.
Mame abanou a cabea:
- J falei com seu pai. Voc vai passar o ano na Flrida. - E, depois de uma pausa, concluiu: - E assunto encerrado.
- Flrida! - eu guinchei. - Flrida! - Flrida, Flrida, Flrida. Josh. Flrida. Minha cabea parecia querer explodir a qualquer momento, enquanto o mundo rodava 
sem parar dentro dela.
Verdade que a Flrida ficava a milhes de quilmetros de minha casa, dos meus amigos e da escola. Mas era onde Josh Nelson Morava. As possibilidades desfilavam pelo 
meu crebro como se estivesse vendo um daqueles filmes magnficos de Danielle Steel na televiso. Sorri. O dia melhorava em ritmo acelerado. A meu lado, Georgie 
latiu. Desconfio que pressentiu minha sbita mudana de humor.
- Para onde voc achou que eu ia mandar voc? Para o rtico?
- Claro que no. - Meu corao batia to rpido que eu parecia estar no meio de uma maratona. Mame no fazia idia de que me entregara de bandeja o presente mais 
fantstico de toda a minha vida. Claro que no iria abrir a boca. Os pais so especialistas em estourar bolhas coloridas de sabo. Sobretudo bolhas de um metro e 
oitenta e sete, loiras, de olhos azuis e do sexo masculino. - S no imaginei que voc me mandaria para a Flrida... s isso.
- Seu pai parece ter finalmente criado algumas razes. Acho que, para vocs dois, vai ser maravilhoso passar um tempo na companhia um do outro. - Os cabelos castanhos 
de mame balanaram de l para c, na altura do ombro. Ela olhou o infinito com aquela expresso tristonha que sempre lhe encobria o rosto quando vinha  baila o 
assunto de meu bem-intencionado, mas excntrico, pai. 
 
A maioria das pessoas imagina que os pais sejam homens grisalhos que chegam em casa s cinco e meia da tarde trazendo em uma das mos uma pasta e, na outra, flores 
para a mulher. Certo, admito que talvez todos os pais no sejam assim na vida real. Mas de um pai espera-se ao menos que viva em um s lugar, tenha um emprego e 
que, de vez em quando, leve os filhos para passear no fim de semana.
Mas meu querido pai  um escultor que, at muito recentemente, acreditava que um carro velho caindo aos pedaos era mais que suficiente para indicar o endereo permanente 
de qualquer criatura. Em geral, ele passava por Portland umas trs ou quatro vezes ao ano e estacionava seu carro na rua de casa. Ficava umas duas semanas, se tanto, 
dava algumas aulas de arte, vendia algumas cermicas, depois botava o p na estrada de novo. Papai j morou em quase todos os estados do pas, mas, pelo visto, durante 
o vero resolveu fixar-se na Flrida. Algo que, para ele, foi, sem dvida, um passo e tanto.
- Talvez voc tenha razo - disse. - Depois que completei dez anos, ns nunca mais nos relacionamos de fato. - Sabia que o relacionamento entre pai e filha era uma 
questo importante para minha me. - E posso aproveitar para ver se esse negcio de sossegar o facho e criar razes  srio mesmo.
Mame abriu um sorriso.
- Ento estamos combinadas. Ns duas comearemos vida nova dentro de exatamente uma semana. - E, de repente, uma sombra enevoou-lhe as feies. - S tem um probleminha.
Ah-oh.
- E qual ? - perguntei quase sem respirar.
- Vou sentir uma saudade doida de voc. - mame estendeu os braos.
- Tambm vou sentir saudade de voc - falei, desabando em cima dela. E iria. Mas sentir saudade de mame me parecia relativamente distante, diante da possibilidade 
de voltar a encontrar meu grande amor. No momento, eu s estava preocupada em ir para a Flrida e descobrir o paradeiro de Josh.
Uma semana. Agente firme, Josh.  s uma semana. Eu encontro voc, e a poderemos ficar juntos para sempre.
*** 
-No acredito que voc vai embora. Eu no acredito. - Maggie j tinha repetido essas mesmas duas frases aproximadamente umas mil e quinhentas vezes desde que soubera 
da noticia. Mas quando o dia da mudana se aproximou, a voz comeou a ficar mais chorosa. Os luminosos olhos verdes mostravam-se tristonhos, e at mesmo o cabelo 
ruivo encaracolado parecia meio borocox.
Enfiei uma nova peruca na cabea. Essa era longa, castanha e sem franja. Depois de ter feito o pior corte de cabelo de toda a minha vida, havia ficado obcecada com 
a idia de comprar uma peruca. Tnhamos passado, Maggie e eu, os ltimos quarenta e cinco minutos dentro da loja Sunny Wigs, e eu j tinha experimentado mais de 
uma dzia de estilos diferentes.
- Maggie, ns j conversamos sobre esse assunto. - No queria admitir, mas estava prestes a ter eu mesma uma gravssima crise de choro.
Maggie arrancou a peruca castanha de minha cabea e substituiu por outra tambm at os ombros, em tons de acaju, mais para o estilo de "mulheres-de-trinta-anos-bem-sucedidas".
-No acredito que voc vai embora - repetiu mais uma vez.
No gosto de despedidas emotivas. No chorei nem no dia em que Josh foi embora. Pelo menos, no na frente dele. Depois que entrei em casa, porm, fui direto pra 
cama, puxei as cobertas e despejei mais ou menos um balde de lgrimas. Em seguida, enxuguei os olhos e fui comemorar a despedida com os amigos.
- Voc tem montes de amigas - ressaltei, arrancando a falsa cabeleira. - Alm do mais, comigo fora da jogada, voc j est praticamente eleita a rainha do baile 
de boas-vindas. - Tirei uma peruca loira encaracolada do balco e enterrei na cabea de Maggie.
- Nossa, obrigada pelo voto de confiana - Maggie respondeu com secura.
- Ora, ora,  para isso que eu estou aqui - retruquei sem me dar por vencida.
- Corrigindo, era para isso que voc estava aqui. - Maggie me entregou uma peruca em tons escuros de loiro. Gostei do estilo: na altura dos ombros com uma franja 
curta de Clepatra. 
Minha amiga no jogou limpo.
- Mags, voc est cansada de saber que vou estar a um telefonema de distncia. E a um pulo de avio.
Ela meneou lentamente a cabea, depois sorriu.
- Bom, pelo menos eu vou conseguir um bronzeado fantstico, quando for visit-la. - Durante nossa longa amizade, e a poder de muita doutrinao, eu acabara convencendo 
Maggie dos benefcios de pensar positivo. Como eu, ela nunca ficava muito tempo no fundo do poo.
Olhei-me no espelho, semi-satisfeita com o reflexo. Poderia viver com aquele cabelo, at que minhas prprias melenas loiras recuperassem a antiga glria e o comprimento 
de antes. De repente, porm, senti-me vivamente consciente de que, se por algum terrvel acaso, eu voltasse a errar o corte de cabelo, Maggie no estaria do meu 
lado l na Flrida para segurar minha mo (ou meus cabelos). Foi uma lembrana horrvel. Continue pensando positivo, ordenei a mim mesma.
-Ser que o Josh vai gostar de mim nesta peruca? - perguntei, louca para levar a conversa para outros rumos que no a iminente despedida de duas grandes amigas.
Maggie sacudiu a cabea.
- Voc no vai mais estar usando peruca, at chegar l, Sara.
Dei de ombros.
- Nunca se sabe. Pode ser que eu decida que  melhor ter cabelo falso do que verdadeiro. - Calei-me por um instante, de cenho franzido para a imagem refletida no 
espelho. - Quer dizer, olhe s para mim. Eu pareo uma vassoura usada.
Maggie girou os olhos.
- Certo. Sei reconhecer uma pessoa tomada pela ansiedade.
- E posso saber o que significa isso? - perguntei, largando um pouco do espelho.
- Voc est preocupada com o Josh e voc, no  verdade? - E Maggie bateu o p no cho,  espera de uma resposta.
No disse nada. No sou muito chegada em conversinhas femininas adocicadas. E odeio admitir que no tenho confiana em mim mesma. Simplesmente no  meu estilo.
- Vai, confessa mocinha - Maggie continuou. - Eu conheo voc. Sei que est preocupada porque ainda no recebeu nenhuma carta dele. 
No era uma pergunta. Era uma afirmao.
- Estou - admiti.
No havia necessidade de elaborar o assunto. Afinal, tinha passado cada segundo dos ltimos dias obcecada com a caixa vazia do correio e com o silncio do telefone. 
E tinha dado a mim mesma um milho de motivos para explicar por que ele ainda no tinha me escrito. A hiptese mais plausvel era a de que Josh teria perdido meu 
nmero de telefone e endereo em algum lugar no trajeto do Maine at a Flrida. Todos ns abemos que pedacinhos de papel tm um jeito todo especial de desaparecer 
no espao. 
Maggie fez um gesto com a mo, como se quisesse apagar minhas preocupaes.
- Voc sabe que ele quer falar com voc. Mas deve estar passando por alguma dificuldade tcnica.
- Eu sei. Mas agora ele no vai poder mais me achar! Mesmo que tenha encontrado meu endereo e tenha me escrito uma carta, nunca mais eu vou receber! Eu terei ido 
embora!
- J no prometi que vou conferir sua caixa de correio todos os dias, depois que voc for para a Flrida? - Maggie me lemnbrou.. - Alm do mais, se o destino de 
vocs for o reencontro, haver um reencontro. Vocs vo se ver de novo, sossegue.
Tirei a peruca da cabea com desnimo.
- J no tenho mais tanta certeza disso. Quer dizer, s porque vamos estar no mesmo estado, no significa que ser mais fcil encontr-lo.
- Mas assim que voc falar com a diretora do acampamento, saber onde ele mora. - Maggie ressaltou. - Alm do mais, eu te conheo, Sara Connelly. Voc sempre consegue 
o que quer. E vai descobrir o paradeiro de Josh, haja o que houver.
- Voc tem razo, Maggie. - Eu me senti um pouco melhor. - E, quando eu descobrir, Josh vai ficar to emocionado de me ver que vai me arrebatar nos braos e me beijar 
at eu sentir que vou desmaiar. - Esse era um devaneio que eu j vivera tantas vezes nos ltimos dias. Era o que me mantinha de cabea erguida. 
 
-  isso mesmo. - Maggie meneou a cabea com todo o vigor.
Sorri para ela, com uma sensao de alvio que me invadiu o corpo todo. Engoli de volta as dvidas e me concentrei na fantasia positiva do reencontro com Josh.
- Adoro voc, Mags. - Nunca tinha dito isso para ela. Grandes amigas em geral no precisam dizer essas coisas uma para a outra. Fica subentendido. Mas momentos dramticos 
pedem medidas drsticas e aquele era decididamente um momento dramtico.
- Eu tambm adoro voc, Sara. - Maggie deu um passo adiante e ns nos abraamos, bem apertado. No queria me afastar dela, jamais, mas tinha assuntos importantes 
a tratar, que simplesmente no poderiam esperar. 
 


























Dois


O sol era uma imensa bola laranja pendurada em um cu azulssimo na hora em que deixei a auto-estrada do sudeste da Flrida e peguei a sada para Bay Beach, no sbado 
 tarde. Segundo o minucioso mapa, que meu pai tinha me mandando por fax, a casa ficava a aproximadamente trs quilmetros dessa sada. J estava at sentindo o 
cheiro do mar. O ar quente e seco me dava a impresso de estar rumando direto para o paraso, dentro de meu conversvel, com o sol me batendo em cheio no rosto, 
e o vento soprando o cabelo (tinha dado uma aparada e, graas a Deus, tudo voltara ao normal). Ser que no era ilegal morar em um estado com um tempo to maravilhoso?
Pena minha me no ter podido fazer a viagem toda comigo. Tnhamos descido juntas pela estrada costeira, depois eu a deixei no aeroporto de Jacksonville, na Flrida. 
Ela pegaria o avio para Miami e, dali, para o Japo. Eu j estava comeando a sentir falta das recomendaes incessantes para no me esquecer de dar banho na Georgie, 
arrumar o quarto e lembrar de desligar a cafeteira eltrica. Mas a vida segue em frente, e a minha ia direto para Josh e para um verdadeiro romance.
-A-h! - exclamei para Georgie.  margem da estrada havia um grande cartaz cor-de-rosa que dizia "Sara! Por aqui". A placa de cartolina fora presa numa estaca de 
pau - por meu pai,  claro.
Continuei avanando, de olho em outras possveis placas. Papai no me desapontou. A cada duzentos metros, mais ou menos, surgia nova indicao, todas mostrando uma 
flecha preta enorme apontada para a frente. Difcil era parar de sorrir. Meu pai talvez no seja o cara mais confivei do mundo, mas sabe dizer as coisas, quando 
quer. Aquele era o maior tapete vermelho de boas-vindas que eu j tinha visto na vida.
Nesse momento, enxerguei uma plaquinha pequena de madeira: Avenida Hart.
 
- Chegamos, Georgie - informei a minha cachorra. A partir daquele momento, eu era uma residente oficial do estado da Flrida. - Esta  a avenida que vai nos levar 
a uma nova vida. - Georgie correspondeu com um latido alto e um abanar de rabo. Depois, latiu outra vez.
- Est certo, est certo - disse a ela. - Esta tambm  a. avenida que, com sorte, me levar de volta a Josh Nelson o cara mais bacana que o universo j criou. - 
Tamanha era minha animao com a perspectiva de encontrar Josh, que foi preciso lembrar a mim mesma de que ele no estaria parado na porta da casa de meu pai, segurando 
um buqu de bales coloridos.
Tinha passado a maior parte da viagem imaginando como seria o momento em que nos encontraramos de novo. L no fundo, porm, sabia que havia uma boa chance de que 
no nos vssemos nunca mais, mas precisava continuar pensando positivo. Essa era a nica forma de agentar o tranco daquela sbita mudana em minha vida. E, ainda 
que a idia fosse de uma insanidade absoluta, havia uma parte minscula dentro de mim imaginando de fato que Josh estava me esperando na casa de meu pai.
Olhei para a direita e para a esquerda, indo em direo ao meu novo lar. O quarteiro era lindo. Casas pequenas, coloridas, alinhadas dos dois lados da rua, todas 
com gramados grandes o suficiente para acomodar belos jardins floridos. Fui passando devagar por elas, lendo os nmeros:
- Estamos perto - comuniquei a Georgie. - Muito, muito, perto.
Ento vi a placa final: "Bem-vindas, Sara e Georgie!" Buzinei trs vezes, enquanto embicava na entrada. Quase no mesmo instante, papai surgiu de trs de algum arbusto 
de aspecto muito extico. Pus ponto morto, desliguei o motor e abri a porta do carro com um tranco. 
 
- Papai! - Deixei cair o chaveiro no cho e corri para abra-lo. Enquanto vencia a curta distncia que nos separava, observei que a vasta cabeleira paterna tinha 
se reduzido a um comprimento at respeitvel: seu cabelo batia nos ombros. E a barba, desgrenhada, de homem das cavernas cedera lugar a um distinto cavanhaque.
J de braos estendidos, papai me enlaou em um imenso abrao de urso. - Voc no precisa me chamar de papai - ele me lembrou. - Ns somos iguais. Pode me chamar 
de Mark.
Tudo bem; meu pai ainda se enquadrava na categoria de hippie maduro. Pelo menos estava usando uma camisa decente e no aquele eterno poncho que mais parecia um cobertor 
de cobrir cavalo. E havia uma casa de verdade assomando atrs dele. Aps anos e anos de trabalho duro e perambulaes mundo afora, papai finalmente comeou a ganhar 
algum dinheiro e a fazer as coisas que a maioria das pessoas faz aos vinte e tantos anos. Havia comprado uma casa, tinha plano de sade e at fazia declarao de 
renda.
- Obrigada, mas acho que prefiro o tradicional papai - falei, rindo.
Meu pai deu de ombros.
- Como voc quiser, meu bem.
Atrs de mim, Georgie saltou do Oldsmobile e foi direto para ele latindo feliz da vida. Vi o rosto de meu pai se iluminar: ele a amava quase tanto quanto eu. Durante 
os minutos seguintes, a reunio entre homem e co dominou a cena. No so muitas as pessoas no planeta que no se importam de lambuzar o rosto com saliva canina, 
mas papai  decididamente uma delas.
Pois . Pachorrento, tranqilo e sorridente. Talvez estivesse comeando a aderir um pouco mais s regras da sociedade, mas era bvio que ele no havia mudado tanto 
assim. E eu me sentia satisfeita de ter essa oportunidade de conhec-lo melhor. Viagens pelo pas inteiro durante as frias e telefonemas espordicos no eram a 
mesma coisa que a convivncia cotidiana. Papai e eu iramos ter uma dinmica inteiramente nova. 
 
Mas no momento no era a questo do relacionamento pai e filha que me atazanava o crebro. Estava com Josh na cabea, e a coisa era sria. Mal podia esperar para 
comear a busca. E de algum modo, sabe-se l como, pretendia comear a caada naquela mesma noite. Primeira parada: a lista telefnica de meu pai. Segunda parada: 
dar mais uma ligada para Gunnie para descobrir o nome da cidade onde Josh morava. E, por fim, tinha planos de tentar a rota de e-mails outra vez.
Se as trs primeiras misses falhassem, havia um esquema mais elaborado. Ir a biblioteca pblica para pesquisar nas listas telefnicas do estado o endereo de Josh 
tinha sido a brilhante idia de ltima hora de Maggie. Uma idia to simples e, ao mesmo tempo, to perfeita: eu simplesmente folhearia todas as listas telefnicas 
da Flrida existentes na biblioteca at encontrar uma que tivesse o nmero do telefone de Josh.
S havia um seno nesse plano. Nelson no  propriamente o sobrenome mais raro dos Estados Unidos. E no fazia a menor idia de qual era o nome do pai dele. Poderia 
muito bem ligar para cem diferentes famlias com sobrenome Nelson e no encontrar nenhum Josh. Mas meu amor no conhecia limites e ligar a esmo era uma tarefa a 
qual me dispunha a executar com a maior satisfao.
- Quem vai querer um hambrguer vegetariano? - papai perguntou. - A churrasqueira j est acesa no quintal.
Girei os olhos; Sou to politicamente correta quanto qualquer filha de pais ultraconscientes, mas gosto de comer uma carninha de vez em quando. Sobretudo aquele 
tipo de carne que vem servida em po de hambrguer, transbordando de ketchup e mostarda, acompanhada de picles.
- Ser que no d para a gente assar uns pedaos de frango, pelo menos?, perguntei como quem no quer nada.
Papai encolheu os ombros.
- Sem problema, querida. Dou um pulo na casa do Tim e pego umas galinhas no freezer dos pais dele.
- Tim? Quem  Tim?
Meu pai abriu um sorriso de orelha a orelha. 
- O Tim  meu novo assistente.  um garoto muito talentoso. Acho que voc vai gostar dele.
Hum... bem... Papai usou um tom de voz, para dizer isso. Um tom que eu j tinha ouvido a me de Maggie usar vrias vezes. Na verdade, ela o usava sempre que queria 
convencer minha amiga a sair com algum cara cujo pai trabalhava com o pai dela na empresa de seguros Greater Portland. Mas no, devia ser impresso. Meu pai era 
um hippie esclarecido, boa-praa e amante da paz. No iria se intrometer nos assuntos particulares da filha. Resolvi dar ao homem que tinha metade da responsabilidade 
por eu estar no mundo o beneficio da dvida e presumir que tinha me enganado quanto a voz de casamenteiro.
- Voc tem um assistente? Que legal!
Papai  um escultor e tanto. J exps em algumas das melhores galerias do pas. Mas no que diz respeito a negcios, bem ele  um horror. Mame e eu sempre achamos 
que ele se beneficiaria muitssimo se contratasse algum para tomar conta das banalidades inerentes ao ato de ganhar a vida.
- O Tim  mais que um assistente. Ele  um escultor de imenso talento que ainda vai deixar sua marca no mundo das artes.
- Legal, essa histria de dotes artsticos -falei. - Mas ser que ele sabe alguma coisa de contabilidade? Para dar uma fora para voc?
- E como. Ele tambm  muito engraado, tem a sua idade, e  solteiro. - Papai enumerou os atributos de Tim como se estivesse vendendo um par de brincos baratos 
por um canal de tele-vendas.
- Puxa, e ele j aprendeu a fazer xixi no quintal? - perguntei sarcstica.
Papai tirou minha enorme sacola do banco traseiro do carro e pendurou-a no ombro esquerdo.
- Ele j me prometeu que vai lhe mostrar um pouco do que temos por aqui - continuou, todo orgulhoso. - E eu me ofereci para pagar um jantar e um cinema para vocs. 
- Papai! - E nessa altura gemi de fato. O que poderia ter ocorrido com aquele pai ultracabea fria que eu conhecia? Quer dizer, mesmo que eu no tivesse meus prprios 
planos no departamento romntico - e eu tinha cem por cento deles prontos na cabea - com certeza no iria querer meu pai se metendo e arranjando um namorado para 
mim.
De mala a tiracolo, ele entrou em casa, com Georgie nos calcanhares.
- Como voc preferir, meu bem. S estou tentando evitar que a transio para a Flrida ensolarada seja muito traumatizante para voc.
- Vai dar tudo certo - garanti a ele. Na verdade, vai dar tudo supercerto assim que eu puser as mos - e os lbios - em Josh.
De repente me dei conta de que tinha parado no meio do caminho. Meus pensamentos vagavam em torno de Josh, bloqueando todo o resto, inclusive a capacidade de colocar 
um p na frente do outro. J me achava na metade da estreita alameda de lajotas que conduzia  porta da frente quando percebi onde estava. Meu queixo praticamente 
caiu no cho. O lugar parecia mais uma casa de boneca do que uma residncia de verdade.
Era um sobradinho lils, uma cor geralmente reservada aos ovos de Pscoa. As esquadrias de todas as janelas estavam pintadas de verde-hortel, mesma cor da varanda 
comprida de madeira que acompanhava a frente da casa. Obviamente, os moradores da Flrida so um pouco mais fantasiosos que ns em Portland, j que hibernamos dez 
meses por ano. Mas a pice de rsistance era a porta da frente. Algum - muito provavelmente meu pai - havia pintado uma sereia de um metro e oitenta, completinha, 
com cauda enroscada e ondas lambendo-lhe os ps, na porta. O minimural at que era interessante, mas no fazia exatamente meu gnero.
- No demore! - papai gritou de algum lugar de dentro da casa. - Pode ir desfazendo as malas, enquanto eu comeo o jantar.
- Estou indo! - berrei.
Papai voltou at a porta e enfiou a cabea para fora. - E quero saber tudo sobre sua me. Pelo visto, ela continua fabulosa como sempre. 
 
Fiz um esforo deliberado para no suspirar. Papai tinha sofrido um bocado com o divrcio. No conseguia namorar mais de um ms com ningum, nos ltimos dez anos. 
O coitado continuava com o corao despedaado. Hum... Talvez haja outros motivos para o destino ter me despejado na Flrida neste determinado momento da vida. Se 
meu pai se achava no direito de me arrumar namorados, talvez coubesse a mim fazer o mesmo por ele.
- Que cara  essa, agora? - papai perguntou. 
- Que cara? - perguntei com o ar mais inocente do mundo, sorrindo meu sorriso de filha perfeita.
Em seguida, disparei pelo que restava da alameda, o corao batendo forte. Estava prestes a fazer minha primeira refeio oficial em minha nova casa oficial na minha 
nova cidade oficial. Exato. Minha nova vida oficial comeava, o que significava tambm algo deveras emocionante. Com um pouco de sorte, havia a possibilidade de 
que Josh viesse a se tomar em breve meu namorado oficial. 

***

O aroma doce e forte da Flrida me obrigou a abrir os olhos s oito horas da manh de um domingo. O sol jorrava pela janela do quarto e dava para escutar o barulho 
do torno girando no ateli do meu pai. Cutuquei Georgie, que ainda dormia a sono solto ao p da cama. Ela abriu os olhos e agitou a cauda alegremente. Diferente 
de mim, Georgie  uma "pessoa" matutina - bem, quer dizer, uma cachorra matutina.
Eu me apaixonei pelo quarto assim que pus os ps dentro dele. Era amplo com assoalho de madeira e paredes amarelas.
- Esta  nossa primeira manh na Flrida, Georgie - falei baixinho. Mais cedo ou mais tarde, eu teria de parar com essa histria de primeiro isso e aquilo: a lista 
poderia ficar interminvel. Primeira vez que eu escovava os dentes, primeiro caf da manh, primeira caminhada at a praia, primeira chuveirada...
- Meu bem? - papai gritou l de baixo. - J acordou?
- J! - respondi. - E acho bom voc ter um bom cereal para me oferecer! 
 
Pulei da cama e, no caminho, passei pelo espelho de corpo inteiro que havia num canto do quarto. Meu cabelo estava todo amassado. Infelizmente, minha nova peruca 
j estava pssima; pelo visto, seria preciso investir um pouco mais para levar adiante o plano de usar cabeleira falsa em bases regulares. Entretanto, no me sentia 
disposta a passar um pente naquela maaroca emaranhada at ter engolido pelo menos uma xcara de caf. Caso contrrio pessoas - ou ces - poderiam se machucar.
O barulho do torno funcionando a todo o vapor foi ficando mais alto,  medida que descia as escadas com meus chinelos de coelhinho. Felizmente, tambm identifiquei 
o perfume caracterstico de caf aromatizado com caramelo, de longe o meu favorito.
Papai talvez no tenha passado muito tempo comigo na poca em que eu atravessava aquele perodo chamado "difcil da adolescncia, mas ao menos tinha prestado ateno 
em mim.
- Caf. Preciso de caf - gemi, entrando na cozinha.
- Deixe ver se eu adivinho - falou uma voz grave. - Voc prefere fraco e doce.
Quase engasguei.. Sentado  mesa enorme de pinho, havia um cara mais ou menos da minha idade. Sorrindo.
- Sara, eu imagino?
- Hum... sim - respondi, com a calma que me foi possvel, considerado que eu estava de roupo roxo de flanela e chinelos de coelhinho. - E voc seria...?
Minha voz passou automaticamente para o "modo de paquera". Certo, confesso que no consigo me ver em uma sala com um gato da minha idade sem exalar o que Maggie 
acabou apelidando de vibraes de paquera. E, confesso tambm, o carinha era um gato. De cabelo escuro curto e lbios vermelhos cheios. Com olhos to castanhos que 
chegavam a parecer pretos. Quer dizer, minha devastadora paixo por Josh no me cegara para os encantos de lindas espcimes do sexo oposto.
- Tim Kaplan, muito prazer - respondeu todo a vontade como se topar com meninas embrulhadas em roupes de flanela, em cozinhas alheias, fosse uma ocorrncia diria 
em sua vida. 
 
A veio o estalo. Tim Kaplan! Garoto-com-quem-supostamente -Sara-teria-seu-primeiro-encontro-na-Flrida! Era tambm o cara que iria ajudar meu pai a passar de hippie 
a yuppie.
- Ento voc  o jovem assistente talentoso que vai ajudar meu pai a no esquecer de pagar as contas em dia.
Tim riu.
- Antes de comear a trabalhar com seu pai, a eletricidade foi cortada duas vezes.
- E ele provavelmente no tinha recebido um centavo pelas ltimas dez peas vendidas - acrescentei.
- Acertou. - Tim levantou-se e foi at a cafeteira. - Voc toma com semidesnatado ou desnatado? - perguntou, enquanto me servia uma apetitosa caneca de caf sabor 
caramelo.
- Sou mais pelo semi. A vida  curta.
- Acar?
Concordei enquanto observava Tim tirar trs colheres de acar de um aucareiro vagamente parecido com um dinossauro, que eu tinha feito para papai na terceira srie.
- Voc tambm gosta de saltos com corda bungee, corridas de moto e pra-pente? -Tim perguntou, passando a caneca.
Dei um gole, antes de olhar para ele.
- Eu disse que a vida  curta. No falei em desejo de morte.
- E de mergulho, voc gosta? Ainda no perdi um cliente.
- Como foi que a conversa passou de leite semidesnatado para mergulho?
- Sou instrutor de mergulho. - Tim levou o bule vazio at a pia, depois apanhou uma esponja j meio gasta e passou na bancada. - Posso ensinar voc numa boa. Sem 
cobrar nada, claro.
Refleti sobre a oferta dele, ainda de olho no jeito como continuou a arrumar a cozinha de uma maneira metdica e despreocupada. A familiaridade do cara com a cozinha 
de meu pai era meio irritante. Quer dizer, afinal a filha ali era eu. Eu deveria estar  vontade, em vez de parecer uma convidada. No estava gostando da idia de 
ser uma estranha numa cidade estranha. Queria me sentir em casa, como me sentia em Portland. Mas fazer um amigo era um bom comeo.
- Adoraria aprender. Marque o dia.
- A gente pode comear depois da escola, uma tarde dessas. Vou conferir meus horrios com seu pai, depois eu lhe digo. 
 
Balancei a cabea. Com menos de vinte e quatro horas na cidade, eu j tinha planos. Nada mau para uma garota de dezessete anos com o cabelo todo amassado. Torci 
para que mame estivesse se ajustando com a mesma facilidade  vida no Japo, e ansiei pelo telefonema que ela me faria  noite. Quem sabe at ter conversado com 
ela j teria encontrado Josh e comeado a me sentir realmente em casa. Bom, est certo, talvez seja otimismo demais. Mas ningum falou que uma garota no tem o direito 
de sonhar...

***

At a hora de me sentar para jantar, no domingo  noite, meu amor inicial pela Flrida j havia levado uma ligeira surra. Tinha fracassado totalmente na tentativa 
de localizar Josh pela lista telefnica, descobrira que no havia um lugar decente onde fazer compras em uma raio de oitenta quilmetros e conseguira me tostar inteira 
na praia. Sem sombra de dvida, seria preciso embarcar na fase dois de meus planos: a biblioteca.
Havia ligado para Maggie trs vezes, durante a tarde, e em cada uma a me dela me disse que a minha melhor amiga tinha sado com "a turma". Pelo visto, minha ausncia 
no tinha causado maiores danos s atividades sociais de Portland. Todo mundo parecia estar se dando muito bem sem mim.
- Por que trs lugares  mesa? - perguntei a meu pai, que estava ocupado mergulhando nosso espaguete em queijo parmeso.
- Eu serei seu distinto convidado esta noite. - E l veio Tim, direto do ateli de papai, com o cabelo empastado de barro.
- Ah - No era minha inteno ser rude, mas estava ficando meio chata a presena do grande assistente. Ele no tinha sado de nossa casa por mais que cinco minutos 
desde o segundo em que pus os ps em Bay Beach. - Voc nunca vai para sua casa?
- Sara! - Meu pai desviou as atenes da enorme travessa de espaguete. - O que h com voc? 
 
- Nada... desculpe. - Qual seria o problema? O coitado do Tim fora um amor comigo o tempo todo. Tudo levava a crer que o nervosismo com os insucessos da busca comeava 
a exercer impacto negativo em minha capacidade de ser civilizada. Sentei-me e forcei um sorriso.
Papai colocou a travessa de espaguete no meio da mesa e sentou-se tambm:
- O Tim fez um vaso magnfico, hoje. Voc devia dar uma olhada.
Concordei, distrada. Minha mente continuava concentrada em encontrar Josh.
- Claro, lgico. 
Tim assobiou.
- Puxa, com todo esse entusiasmo, acho que j vou providenciar uma exposio no MOMA.
Olhei para os talheres e no disse nada. No estava a fim de gozaes.
- Quem quer po de alho? - papai perguntou. - Comprei o po de um agricultor orgnico em Coral Gables.
Estendi o prato.
- Obrigada. 
Tim olhava fixo para mim, tentando me fazer reagir. Bem, ele podia encarar o quanto quisesse.
- No se incomode com a sua falta de interesse - ele disse. - Quer dizer, no  todo mundo que sabe apreciar a grande arte. Voc provavelmente prefere ver seriados 
na televiso e ler revistas sobre a vida de artistas.
Muito bem, j era o suficiente. Ergui a cabea e encarei-o de volta.
- Para sua informao, no vejo televiso a menos que seja forada a faz-lo por algum amigo chegado. E tambm no leio esse tipo de revistas. Seja para que pblico 
for.
Tim riu, a mesma risada solta e  vontade, que me chamara a ateno pela manh.
- Relaxe, Sara. S estava brincando.
Mantive a carranca por alguns momentos, mas aqueles olhos castanhos brincalhes acabaram me obrigando a abrir um sorriso. Ele tinha razo: eu havia exagerado. Mesmo 
assim, no iria admitir.
- Eu sei. Eu tambm.
- Hum-hum - foi a resposta dele, que obviamente tinha achado a minha mais engraada ainda. - Certo.
Papai ps duas fatias de po de alho em meu prato.
- Est nervosa por causa da escola, meu bem?
No, papai. Nem um pouco. O primeiro dia em uma nova escola no  motivo de alarme. - Claro que no. Eu no fico nervosa. 
 
Est bem, confesso que, quando minha me ligou, disse a ela que estava com frio na barriga por causa da escola a qual comearia a freqentar no dia seguinte. Mas 
Tim no precisava saber disso. Certas informaes  melhor guardar consigo.
Tim ergueu uma sobrancelha castanha.
- Se quiser, eu posso lhe dar uma carona at a Glendale e mostrar onde ficam as coisas. Aquilo l pode ser meio assustador, a princpio.
Mergulhei o garfo na massa e sacudi a cabea com todo o vigor. No iria deixar que Tim sentisse d de mim.
- Sou uma aventureira. Gosto de fazer as coisas sozinha. 
Ele meneou a cabea, com os olhos cintilantes.
- Como voc preferir... contanto que no perca a coragem para ir s aulas de mergulho.
- Quanto a isso. no tem o menor perigo. Eu estarei l. - Um pesadelo de nada, justamente o da noite anterior, no qual eu me afogava ao lado de uma bando de tubares, 
no iria me impedir de entrar no esplndido mundo do fundo do mar.
- Excelente! - Papai disse naquela voz irritante que ele parecia ter adotado desde a leitura de Pais e filhas: a importncia de incentivar a auto-estima. - Minha 
filha Sara no est nervosa e meus dois adolescentes favoritos vo embarcar em uma odissia submarina. A vida no poderia ser melhor.
Vale dizer que papai estava pesando um pouco a barra para o lado de banalidades do gnero "a vida  perfeita". Mas ele tinha um fundo de razo. De repente, era gostoso 
ter Tim por perto, mesmo que ele me desse um pouco nos nervos. Afinal de contas, o garoto havia conseguido melhorar meu humor. E eu estava louca para comear a aprender 
a mergulhar com mscara.
Entretanto, a vida poderia ser melhor, muito melhor. E eu tinha certeza de que seria, se conseguisse localizar Josh. A a vida seria praticamente perfeita. 
 
Dirio de Agradecimento Oficial de Sara (Estilo Oprah)

***
Cheguei  concluso de que lugares novos pedem rotinas novas, portanto vou seguir o conselho dado por Oprah Winfrey outro dia na televiso e comear meu prprio 
Dirio de Agradecimento. A idia geral  a seguinte: se eu anotar cinco coisas pelas quais posso me considerar grata, todos os dias, minha vida comear a mudar. 
Vou me concentrar nos bons acontecimentos e esquecer dos maus. De qualquer modo, em geral, prefiro me concentrar nos bons. Mas devo admitir que estar em uma cidade 
desconhecida  mais assustador do que eu esperava. Ento, l vai...
Agradeo ao fato de meu pai e eu estarmos juntos de novo.
Agradeo ao tempo, que est fantstico.
Agradeo por meu carro no ter enguiado a caminho daqui.
Agradeo por Tim Kaplan (embora ele seja meio irritante) parecer disposto a me levar para passear e ficar por perto.
Por ltimo, mas no em ltimo lugar, agradeo por Josh e eu estarmos agora no mesmo estado, embora eu no saiba, ainda, onde ele mora exatamente. 
 















Trs

- Desculpe - disse. E olha que no era a primeira vez naquela manh. Eu j tinha atropelado diversas pessoas na minha perambulao sem rumo pelos interminveis corredores 
abarrotados de gente do colgio Glendale. J mencionei que odeio segundas-feiras?
O colgio Glendale no  simplesmente uma escola:  uma cidade. Nunca tinha visto tantos corredores e tantas salas de aula, sem falar em alunos, debaixo do mesmo 
teto. At o gabinete da administrao estava lotado de gente. Precisei esperar dez minutos para conseguir falar com a pessoa encarregada. No fim, consegui que a 
inspetora Rodriguez me entregasse um mapa do prdio e o horrio das aulas, no sem antes ouvir uma lista de regras e diretrizes referentes a trajes e comportamento. 
Basicamente, no posso usar saias que mostrem a calcinha nem camisetas obscenas e, em hiptese alguma, devo namorar nos corredores.
A garota em quem eu acabara de dar um encontro me lanou um olhar fulminante antes de avanar corredor afora. Obviamente, bons modos no faziam parte dos regulamentos 
da escola. Afastei-me da torrente de alunos encostando-me em um armrio pintado de roxo. Havia um qu de arfante em minha respirao que reconheci, de imediato, 
como sintoma de ansiedade. Notei tambm que as palmas das mos estavam suadas enquanto mais ou menos torcia para que se abrisse um buraco no cho que me engolisse 
inteira, com tamancos novos e tudo.
Quem acreditaria que poucos dias antes eu achava que iria simplesmente mudar de casa, telefonar para Josh e viver uma vida de amor, diverso e amizade? At o momento, 
tudo o que havia conseguido fora queimadura de sol, indigesto com pasta de caranguejo e uma noite em claro, preocupada com o primeiro dia uma escola nova em folha. 
E, no que se referia a Josh, estava comeando a perceber o tamanho da Flrida. 
Uma rpida passada pela biblioteca da escola - felizmente dera de cara com ela - tinha sido suficiente para constatar que havia pelo menos duzentas listas telefnicas 
a minha espera. Procurar todos os Nelsons e copiar todos os possveis nmeros de telefones levaria semanas. E j at previa qual seria a reao de meu pai ao receber 
uma conta telefnica com ligaes para varias centenas de Nelsons espalhados por todo o estado. Ao menos tinha o consolo de saber que Gunnie estava para voltar das 
frias que tirara depois de comandar o acampamento de vero. Ela poderia me dar o nmero do telefone e o nome da cidade de Josh em segundos.
- Perdida? - perguntou uma garota mida, de cabelos pretos brilhantes e um sorriso que certas meninas costumam reservar para o Campeonato Nacional de Lderes de 
Torcida. Pareceu-me um pouco mais presunosa que as garotas que em geral eu circulo, mas, puxa, eu precisava de amigas, onde quer que eu pudesse ach-las!
- Perdida  fichinha - falei. - Estou vagando pelos corredores h uma eternidade.
- Voc  nova aqui - disse-me ela, com voz carregada de simpatia. No mesmo instante, senti-me culpada por ter zombado mentalmente dela, com base no simples fato 
de a garota ter um daqueles narizinhos arrebitados engraadinhos.
- Sou, acabei de chegar do Maine. - Dei-lhe um sorriso que eu torcia para ser simptico.
- Bem-vinda  Flrida, ento! Eu sou Raleigh Stockton. - E estendeu a mo, que eu apertei meio sem graa.
- Sara Connelly. Estou desesperadamente necessitada de uma boa alma que se compadea de mim.
- Pode deixar comigo. - Raleigh pegou o horrio de minhas mos e examinou-o por alguns momentos. - Para comear, voc est no prdio errado. A sala do professor 
Maughn fica no prdio Kingman.
- Ah. - As coisas estavam comeando mal para quem pretendia passar em Calculo Um. Se eu no fazia idia nem de que a escola tinha mais de um prdio, que dir conseguir 
encontr-lo.
- Levo voc at l - Raleigh props.
Senti uma onda de ingratido infinita. 
 
- No, no precisa - falei com toda a humildade. - Quer dizer, a sua aula tambm j deve estar comeando.
Ela deu de ombros.
- Todo o mundo por aqui me conhece. Alm do mais,  s dizer  professora Martin que estava mostrando a escola para uma aluna nova.
Gemi. Eu era uma aluna nova, o rtulo mais temido nos colgios do pas inteiro.
- Obrigada. - murmurei.
Raleigh deslizou pelo corredor, e eu a segui docilmente. Seria esse o sentimento de Georgie, quando grudava nos meus calcanhares?
- Ento, voc vai ao jogo da sexta-feira? - ela me perguntou.
- Hum... no sei ainda. - Eu sempre ia aos jogos em Portland, s que l fazia parte integrante de tudo, embora nunca tinha sequer olhado para o campo. Os jogos de 
futebol eram apenas mais uma oportunidade de me reunir com a turma.
- Pois devia - Raleigh aconselhou. -  o melhor jeito de conhecer gente. - E me deu sorriso imenso. Obviamente, j tinha cuidado de outros "alunos novos" na vida. 
- Eu iria com voc, mas tenho de animar a torcida.
Ento ela era lder de torcida. Meu radar antipresuno acertara na mosca!
- Eu, hum... vou pensar a respeito. - Controle-se, Sara, eu disse com meus botes. Veja se encontra alguma simpatia escondida em algum canto desse seu belo eu. No 
apreceu quase nenhuma. - Quer dizer, claro, vou sim.
- timo.
No final do corredor, ela empurrou uma imensa porta vermelha. - O prdio Kingman fica no fim dessa alameda - explicou, continuando em frente. - E o ginsio  por 
ali. - Fez um gesto na direo geral de um gigantesco estacionamento.
- Por que essa escola  to imensa? - perguntei. - Bay Beach tem no mximo cinqenta mil habitantes, se tanto.
Raleigh riu.
- Bay Beach s tem cinqenta mil moradores, mas a Glendale atende estudantes de toda a regio. Tem gente que dirige pelo menos sessenta quilmetros para chegar at 
aqui.
Tonta. A garota deve estar me achando a maior idiota do planeta. 
-Certo, certo... - dizer o qu, depois de uma pergunta to imbecil? Comeava a char que tinha esquecido o crebro que tinha me garantido 1490 pontos no teste de 
aptido escolar l em Portland.
- A boa notcia  que temos toneladas de gatos - Raleigh me disse, em tom de conchavo. - Uma garota bonita como voc vai arrumar mais encontros do que qualquer uma 
dessas modelos ou cantoras que viram celebridade! Dei risada, a primeira risada autentica do dia. Primeiro, porque adoro um elogio. Segundo, porque Raleigh conseguira 
dizer algo engraado.
- No sei se estou disponvel no momento - falei. - Estou, mais ou menos, com uma pessoa.
- mesmo? - Os olhos da Raleigh se iluminaram. - Adoro saber sobre os romances alheios. Namoro o mesmo garoto desde os oito anos, mais ou menos.
Isso no me espantou nem um pouco. Meninas como a Raleigh sempre terminam com o rapaz da casa ao lado.
- Nossa! Quanto tempo. - Fingi indignao. O nome dele provavelmente devia ser Biff ou Skip.
- Pois . Agora me conte sobre o seu namorado. Ele ficou no Maine, morrendo de saudade de voc?
- , mais ou menos. - Ao menos esperava que Josh estivesse morrendo de saudade.
- Que chato. Um namorado no serve para muita coisa, a menos que esteja na mesma escola que a gente.
At a, concordvamos em tudo. A simples idia de freqentar a mesma escola que Josh era suficiente para me transformar em uma maluca incoerente de tanta felicidade. 
J estava at vendo: eu entraria no prdio Kingman, para assistir  aula de Calculo, e daria de cara com Josh parado no meio da sala. S que a vida no  bem assim.
- Bom, espero que valha a pena esperar por ele. - Raleigh apontou para um pequeno prdio de tijolinho aparente,  esquerda. - Aquele  o Kingman.
Paramos as duas. Este era o momento: ser que uma das duas iria fazer o esforo de tentar estabelecer uma amizade? Ou ser que iramos admitir em silencio que no 
tnhamos nada em comum e deixar as coisas como estavam? 
 
Obrigada pela ajuda - disse.
- Imagine! - Raleigh me respondeu, com todo o entusiasmo. Por dentro, era como se estivesse soltando o maior suspiro de alvio pelo fato de eu no t-la convidado 
para dormir em casa no sbado  noite. - E boa sorte!
Continuando seu percurso saltitante pela alameda, Raleigh me deixou sozinha na frente do prdio. A ltima campainha tinha soado alguns minutos antes. Eu teria de 
entrar em uma sala lotada, interromper uma aula em andamento e esperar que um velho professor rabugento de matemtica dissesse meu nome em voz alta. Pode-se dizer 
que eu no estava tendo a melhor manh de minha vida. Do outro lado, meu cabelo at que tinha ficado legal. E, por enquanto, um cabelo decente era o suficiente.
Respirei fundo.
- Glendale, aqui vou eu.

*** 
 
 tarde, desabei sobre o sof da sala, junto com Georgie, e fiquei assistindo Oprah, afogada em tristezas. Em geral, nunca me permito chegar assim to fundo no poo, 
mas no pude evitar. L estava eu, a quilmetros e quilmetros de casa, sem a menor esperana de descobrir o paradeiro de Josh. Claro que eu acalentava mil fantasias, 
mas era preciso encarar os fatos: no havia a menor possibilidade de eu encontr-lo de novo... ao menos em um futuro imediato.
E, para completar, freqentava uma escola nova, sem um amigo para contar tal triste histria. Sem falar que todos os professores haviam passado uma quantidade absurda 
de deveres de casa para a primeira semana de aula. A vida estava para l de tenebrosa.
- Ei, Sara.
Ergui os olhos e vi Tim parado dentro de minha sala, sorrindo.
Tentei sorrir de volta.
- Oi - resmunguei.
Tim acomodou-se na poltrona em frente.
- Voc no est com uma cara muito boa, hoje.
timo. Isso era justamente o que precisava, algum para reforar meus sentimentos negativos.
- Muito obrigada - respondi com sarcasmo.
Ele riu e abanou a cabea.
- No quis dizer isso, Sara. Mas voc est me parecendo meio para baixo.
Suspirei e sentei direito no sof.
- Pois , tive um longo dia.
- Hum... sei. O primeiro dia de escola tambm no foi l muito legal para mim.
- Ao menos voc est em territrio conhecido. Ser aluna nova no  brincadeira.
-  impresso minha ou estou escutando certo tom de autocomiserao? - Os olhos escuros de Tim cintilaram. Pelo visto, ele estava achando tudo muito divertido. - 
O que houve com a garota que adora aventura?
Deixei escapar um suspiro fundo.
- Olha, Tim, no estou de muito bom humor - avisei-o. - Portanto, se est tentando me aborrecer, este no  um bom momento.
Tim levantou-se e ergueu as mos, em um gesto de rendio. 
- Certo, certo, vou lhe dar um tempo. - Pegou a mochila e tirou de dentro dela um saco de papel pardo. - Na verdade, achei que voc estaria por aqui de bobeira e 
necessitada de um pouco de acar, assim trouxe-lhe isto. - E me entregou o pacotinho. - Mas no esquenta. Entendo perfeitamente a necessidade de ficar s. E preciso 
ir trabalhar, agora.
- Oh.
Dei uma espiada no saco de papel, sentindo-me pssima por ter sido brusca com ele. L dentro, havia balas de goma de todos os formatos e sabores. Minhas favoritas, 
de longe. Mas como Tim poderia saber disso? Por mais deprimida que estivesse, no pude evitar de sorrir diante de um gesto to bonito.
Levantei os olhos. Tim estava saindo da sala.
- Ei, Tim - gritei.
Ele parou na hora e virou-se:
- Sim?
- Obrigada - falei, erguendo o saco de papel. - Foi superlegal de sua parte.
Tim deu de ombros.
-  para isso que servem os amigos. - Depois virou-se de novo e foi para o ateli de papai.
Deitei no sof e mordi uma goma de pssego, sentindo-me bem mais confortvel que algumas horas antes.
Pelo menos tinha um amigo de verdade na Flrida.

*** 
 
- Voc costumava ir aos jogos de futebol l em Portland? - Tim perguntou-me na sexta  noite. Tinha adiado minha aula de mergulho para podermos ir juntos ao jogo. 
Minha sbita mudana para a Flrida era um choque e tanto no sistema. No precisava acrescentar respirao subaqutica ao rumo bizarro, pelo menos por enquanto.
O jogo ainda nem tinha comeado, e eu j me sentia entediada. Tim e eu tnhamos ido assistir  partida de futebol americano com o melhor amigo dele, Ed Pratt. Mas, 
assim que viu um grupo de primeiranistas lanando olhares melosos em sua direo, Ed no perdeu tempo. Ficamos sozinhos, Tim e eu.
Dei de ombros.
- Costumava, mas era diferente.
Sempre associava futebol com noites geladas de outono, cheiro de folhas queimadas e gosto de chocolate quente. Mas a temperatura achava-se na casa dos 27 graus, 
e o perfume das madressilvas permeava as arquibancadas. O Maine nunca me pareceu to distante.
- Diferente como? Futebol  futebol.
Dei de ombros de novo.
- Estou acostumada a conhecer todo mundo, s isso. - No estava exatamente a fim de entrar em detalhes. Trazer  baila os vrios momentos em que eu fizera a turma 
morrer de rir com minhas tiradas bem-humoradas e minhas loucuras era deprimente demais.
Claro que em algum momento eu encontraria meu lugar na Glendale. Mas, at l, o ano j estaria terminado, e o mais provvel era acabar indo ao baile de formatura 
com um boboca qualquer, um daqueles caras para quem o mximo do divertimento  observar o nado das baleias.
Na verdade, o que queria era recuperar meu lugar de candidata  rainha do baile de boas-vindas e de "garota-com-maiores-chances-de-ter-programa-qualquer-noite-da-semana".
- Talvez a falta de um monte de amigos em volta acabe sendo boa para voc - Tim comentou. - Isso pode lhe dar mais tempo para refletir, antes de terminar o colgio.
Ser que eu tinha entendido direito? Quem est precisando refletir? Eu queria me divertir. E namorar.
-  isso que voc faz o tempo todo? Refletir? 
- Algum j lhe disse que voc  muito geniosa? - Tim deu um gole em sua vitamina com leite e arqueou uma sobrancelha escura.
- No. - At eu escutei a birra em meu tom de voz, mas no me importei. Tim era a nica pessoa de minha prpria idade com quem eu tinha conversado durante a semana 
inteira. Sendo assim, era o infeliz recipiente de meu notrio mau humor.
Ele riu. Puxa, o cara ria o tempo todo. Parecia irritantemente confortvel consigo mesmo. Era eu quem devia me sentir confortvel comigo mesma. Eu era querida, bonita 
e inteligente.
- Sara, posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro. - Recostei-me no banco, fechei os olhos e virei o rosto em direo aos ltimos raios de sol. Parecia que toda a energia fora sugada de mim. - Manda ver.
- Voc tem namorado em Portland?
Meus olhos se abriram na hora e endireitei o corpo feito uma bala. S a lembrana de Josh era suficiente para recarregar meu sistema.
- Tenho.  um namoro srio, na verdade. - O fato de que no tnhamos nos falado nos ltimos trinta dias era de importncia secundria.
- Ah. Entendo. - Tim balanou a cabea. - Ento  por isso que voc anda to rabugenta. Est sentindo falta dele.
Era mesmo muito irritante que aquele garoto conseguisse ler meus estados de esprito com tanta facilidade. Seria assim to bvio?
- No ando rabugenta - protestei.
De novo, Tim arqueou uma nica sobrancelha. Como ele conseguia fazer isso, por sinal?
- Est bem, talvez esteja sendo um pouquinho rabugenta - concordei.
- Muito nobre de sua parte admitir o fato. - Tim sorriu e os olhos se iluminaram com aquela mesma centelha a qual j tinha reparado na outra noite. - Voc vai tentar 
visit-lo? Ou vocs terminaram por causa da distncia?
- Ah, o Josh no mora no Maine - expliquei. - Ele mora aqui. Ns nos conhecemos em um acampamento.
Tim franziu as sobrancelhas, como quem no estava entendendo.
- Aqui? Aqui em Bay Beach? 
 
- Quem me dera. Do jeito como anda minha sorte,  mais provvel que ele more no outro extremo do estado ou coisa parecida - falei, deixando que minha frustrao 
com a busca de Josh viesse  tona de vez. - O problema  que ele perdeu meu telefone e o endereo tambm. E eu no peguei o dele. Essas ltimas semanas foram um 
inferno. Ns no conseguimos nos encontrar. - Agora que Tim havia me obrigado a embarcar no meu assunto predileto, nada me faria parar. Eu estava embalada. - Voc 
entende que o Josh no  qualquer cara.
- Ah.
- Ns estamos falando de amor, de amor de verdade.
Tim no disse nada. Sentada ali ao lado, naquele silncio embaraoso que se seguiu, me senti de repente uma idiota por ter despejado todos os meus sentimentos em 
cima dele. Sem dvida era muito fcil conversar com Tim, mas, afinal, eu tinha acabado de conhec-lo. No estava acostumada a me abrir assim com estranhos. E o fato 
de ele ter perdido a fala indicava que o rumo da conversa no era exatamente o que ele esperava.
Constrangida, olhei para ele, mas Tim estava de olhos baixos, fixos nas prprias mos, como se estivesse pensando muito a srio em algo. Era a primeira vez que via 
qualquer outra expresso naquele rosto que no fosse a calma absoluta.
Cutuquei-o.
- Ei, Terra chamando Tim.
Ele ergueu os olhos, pego de surpresa. O rosto ficou ligeiramente rosado.
- Ah, desculpe. Devo ter sado de rbita alguns momentos.
- Tudo bem. No era minha inteno aborrec-lo com meus problemas.
- Voc no me aborreceu nem um pouco. - Tim sacudiu a cabea e voltou a ser o velho Tim que eu conhecia, despreocupado. - Voc disse que ele se chama Josh?
- . - No consegui refrear um imenso sorriso ao me lembrar daquele rosto lindo. - Josh Nelson.
O rosto de Tim passou de rosa a branco em segundos. Qual era o problema com ele? Comecei a achar que estivesse doente, ou algo parecido.
- Josh Nelson? - ele repetiu.
- Justamente. - respondi, suspirando sonhadoramente. At o som do nome dele provocava arrepios em meus braos. 
Nesse instante, houve uma sbita exploso de sons e um grupo de lderes de torcida surgiu do ginsio de esportes para dar a volta no campo.
- Me dem um G! - elas gritaram em unssono.
- G! - todo mundo na arquibancada respondeu.
- Me dem um L! - As meninas estavam se organizando em uma pirmide.
- L!
No fiquei surpresa ao ver que Raleigh, minha guia turstica presunosa, rumava para o topo da pirmide humana. Ela era uma daquelas meninas midas feitas para andar 
de cavalinho no ombro dos garotos e fazer ginstica olmpica.
A gritaria continuava, cada vez mais ensurdecedora. Se estivesse o Maine, estaria gritando a plenos pulmes. Mas, ali, continuei calada. Glendale simplesmente no 
era a minha escola.
Dei uma espiada em Tim e reparei que ele tambm no aderira  torcida. Continuava olhando fixo para o campo, muito plido ainda. Desconfiei que no era do tipo esprito 
coletivo.
Por fim, o barulho diminuiu. Tim me puxou o brao.
- Ei, hum... Sara?
- Sim?
Ele olhou bem nos meus olhos, com um ar srio demais para quem supostamente se divertia em um jogo de futebol. 
- Tem uma coisa que eu devia...
- Bem-vindos, todos vocs fs do Gator! - Uma voz grave masculina trovejou nos alto-falantes e desviou minha ateno. - Vamos dar uma grande salva de palmas para 
o primeiro jogo do Gator deste ano!
Virei-me de novo para Tim. - O que voc ia dizer?
Ele continuou me olhando por uns bons momentos, depois balanou a cabea e desviou a vista. - No era nada - resmungou. - Digo depois.
Encolhi os ombros. - Como voc preferir. - Concentrei-me de volta no campo e nos atletas que iam entrando.
De incio, os jogadores pareciam todos iguais. Coloque quinze garotos dentro de calas brancas, uma camisa vermelha, enchimentos e capacete e fica difcil identificar 
quem  quem. Aos poucos, meus olhos foram se concentrando no nmero dezessete. Havia qualquer coisa no jeito de ele andar... 
J tinha visto aquele andar antes; mais recentemente em sonhos. Havia rvores, um lago azulssimo e um cheiro doce no ar. E Josh, claro. Sacudi a cabea. No estava 
olhando para Josh Nelson. Seria coincidncia demais, sem falar em fantasia desenfreada, que Josh e eu pudssemos estar cursando a mesma escola. Alm do que, sabia 
que ele no jogava futebol. Obviamente, a saudade comeava a me deixar maluca.
- Nmero onze, Bem Wycliff - o locutor berrou. - Nmero quinze, Art Preston.
Mantive os olhos grudados no nmero dezessete. De todo modo, no havia com aquele rapaz ser.
- E nmero dezessete, Joshua Nelson!
Joshua Nelson! Era ele! Minha cabea martelava e meu crebro parecia a ponto de explodir.
Se no tivesse sentido todo o sangue que havia em meu corpo subir direto para o meu rosto, teria achado que tinha morrido e ido para o cu.
- Sara! - A voz de Tim ressoou em meu ouvido. - Escute, Sara, tem uma coisa que...
Sacudi a cabea emocionadissima. Fosse l o que fosse que Tim precisava me contar, teria de esperar. Josh estava ali!
- Ser que voc no entendeu? - exclamei. -  ele!  o Josh!
- Sei, eu sei, mas Sara... - Tim comeou.
- Que mas, que nada! - Foi uma cortada brusca. - Este  o melhor dia de toda a minha vida! - Fechei os olhos por alguns momentos, tomada de repente por uma onda 
de enjo de estomago, devido quela comoo toda.
- Acho que vou vomitar - falei com toda a calma para Tim. Depois me levantei e sai correndo. Era preciso encontrar um banheiro. Rpido. 
 












Quatro

A Escola de Segundo Grau Glendale venceu o jogo. Durante duas horas e meia de tortura, vaguei pelo estdio, contando os segundos at Josh sair do campo. Mas tive 
a decncia de ir procurar Tim de novo, para lhe dizer que no o abandonara por completo. Ele estava entretido em uma conversa com Ed, mas quando me viu, tentou me 
dizer alguma coisa. Havia, no entanto, adrenalina demais correndo pelo meu sangue e eu no conseguia parar quieta, de modo que pedi para ele reservar o que tinha 
para me contar. Em seguida, durante meia hora, fiquei no banheiro, com medo de botar para fora o cachorro-quente com milho verde que eu havia ingerido. Assim que 
me pareceu que no iria mais destripar o mico, gastei outros quinze minutos retocando o batom.
Em seguida, fiquei zanzando na beirada do campo, vendo os jogadores se cumprimentarem com as palmas das mos erguidas e tapinhas nas costas. Vamos logo, Josh, eu 
o apressava em silncio Estou esperando voc! Estou aqui!
Coloquei o indicador de leve no pulso esquerdo: o corao martelava adoidado. Ser que alguma vez j tinha sentido tamanha emoo? Bom, houve aquele Natal em que 
desci a escada de casa e vi uma bicicleta novinha em folha a minha espera. Mas o que era aquela mquina azul de dez velocidades comparada ao fato de saber que meu 
longnquo amor achava-se ali, ao meu alcance?
- Sara! A est voc. - Mas no era Josh que vinha ao meu encontro. Era Tim.
- Oi. - Desgrudei o olho dos jogadores e me virei para ele. - Desculpe, no fui uma boa companhia hoje. Mas voc entende.  difcil ficar parada em um lugar s, 
com o Josh ali e tudo o mais.
- Certo - disse Tim, mudando o peso do corpo de um p para outro. - Hum... achei que talvez fosse uma boa idia levar voc para casa.
- Para casa! - exclamei. - Voc est me gozando? No saio daqui sem o Josh!
No sabia qual era o problema com Tim e, naquele momento, estava pouco interessada. Tudo o que queria era sair correndo e dar um beijo em Josh. Recuei um pouco para 
poder ver melhor o campo.
 
Os jogadores comearam a sair, todos juntos. Por alguns instantes, perdi de vista o nmero dezessete.
- Sara? - Tim chamou de novo. - Eu realmente achava melhor...
Descartei o comentrio.
- L est ele! - sussurrei. -  ele mesmo!
O nmero dezessete tinha tirado o capacete, deixando  mostra o cabelo loiro do qual eu me lembrava to bem. Ele continuava a vrios metros de distncia, mas tinha 
a certeza de que era Josh. J podia quase sentir o gosto de seus lbios, quando o vi aproximar-se mais e mais do local onde Tim e eu estvamos.
Dei alguns passos  frente, incerta, e ainda escutei vagamente Tim chamar meu nome, quando avancei para o grupo de jogadores a poucos passos de mim.
E foi nesse momento que ele me viu. De incio o olhar de Josh passou por mim sem me notar, como se estivesse  procura de algum mais na arquibancada. Mas, um segundo 
depois, o olhar voltou a focalizar meu rosto. Vi a centelha de reconhecimento em seus olhos.
-Josh? - gaguejei. No era comum eu ficar sem fala, mas, naquele momento, senti a boca abrir e fechar sem que sasse um nico som de l de dentro.
-Josh - consegui finalmente repetir, em um sussurro rouco.
Ele era lindo - ainda mais bonito que a lembrana guardada em minha memria. As vrias fotografias pregadas no quadro de cortia, em cima da cama, simplesmente no 
lhe faziam justia. Ele era um gato.
- Sara? - Os olhos azuis reluziram ao me ver. Aquilo era obra do destino, s podia ser. Algum, no imenso universo, queria nos ver juntos, Josh e eu. Que outro motivo 
nos levaria para o mesmo colgio?
Meneei a cabea. Como uma pessoa cumprimenta o grande amor de sua vida em um momento como esse? Engoli em seco vrias vezes, antecipando a sensao dos lbios macios 
e firmes de Josh ao encontro dos meus.
- Minha me foi para o Japo-balbuciei, abobalhada. Como se isso explicasse por que eu estava assistindo ao primeiro jogo de futebol da temporada. Como se isso explicasse 
alguma coisa. - Vim para c, passar o ano com meu pai. 
 
Josh sacudia a cabea para a frente e para trs, repetidas vezes, apatetado, sem entender nada. Essa no era exatamente a reunio romntica e apaixonada que tinha 
em mente. Mas tambm no podia culp-lo por estar chocado de me ver. Eu estava chocada. E olhe que sabia que esse encontro era iminente.
- Sara... Eu no acredito. - Deu um passo adiante e apertou minha mo.
Meu corao saiu fora de compasso. Vi amor naqueles olhos o mesmo amor que tinha visto todos os dias que passamos lado a lado, no Maine. Peguei a mo dele e a enlacei. 
Um calor gostoso espalhou-se por todo o corpo.
Sentia-me vagamente consciente de estarmos rodeados por uma dzia de jogadores grandalhes e de Tim, parado ali por perto. Mas as luzes, as arquibancadas e a platia 
pareciam ter desaparecido por completo enquanto fitava os olhos de Josh.
- Eu quis ligar e dizer que vinha para c - falei, com palavras que jorravam de minha boca mais depressa do que conseguia pronunci-las. - Mas, no peguei seu endereo. 
- E voc nunca me escreveu, acrescentei para mim mesma. Por favor, me diga por qu. Diga-me que perdeu meu nmero de telefone ou que sofreu um acidente de carro, 
ou ento que voc foi abduzido por aliengenas. Diga qualquer coisa...
- Pois , eu sei. - A voz de Josh foi sumindo. Com a mesma rapidez com que instantes antes tinha agarrado minha mo, largou-a, frouxa e abandonada.
- Josh? - Por que ele no estava dando pulos de alegria e me apresentando aos amigos? Ou me beijando apaixonadamente? - Josh, qual  o problema?
Ele espiava por cima de mim, os olhos azuis alarmados.
- Raleigh - ele disse.
Virei o corpo. Raleigh estava parada bem atrs. Sorrindo para Josh. - Ei, amor! - ela exclamou toda feliz. - Voc jogou superbem!
- Obrigado. - Josh afastou-se de mim como se tivessem acabado de anunciar meu contato com o vrus Ebola.
Horrorizada, vi Raleigh atirar-se nos braos estendidos de Josh.
- Oi, Sara - Raleigh me disse, depois de finalmente desgrudar dele. - Voc j conhece meu namorado? 
 
Namorado? Ai, Deus.
- Eu, hum... eu... - Isso no podia estar acontecendo. Essa no era minha vida. Tinha havido algum engano, e o universo havia me entregado a crise romntica de uma 
outra garota qualquer.
- A gente j se cruzou - disse Josh, dando-me uma olhada muito rpida e pondo o brao em volta da cintura de Raleigh.
A coisa caminhava rapidamente do ruim para o pior e dali para o insustentvel. O cachorro-quente parecia de chumbo em meu estmago.
De repente. Tim estava ao meu lado.
- Sara, vamos andando? - perguntou, com os olhos cor de chocolate cheios de preocupao.
Meneei a cabea sem conseguir abrir a boca.
- Ento vamos. - Lembro-me vagamente de t-lo ouvido se despedir de Josh e de Raleigh, mas pelo jeito eu iria desmaiar. Provavelmente teria desmaiado, se Tim no 
estivesse ali para me segurar.
Mas, graas a Deus, ele estava, porque eu precisava fugir o mais rpido possvel. Precisava deixar aquele estdio lotado, deixar Josh, deixar o monte de lixo em 
que toda a minha vida de repente se transformara.

***

- Como... como... ele pde... fazer isso? - consegui articular, em meio a enormes soluos.
A volta para casa foi um completo borro para mim. Nem sei
como entrei e sa do carro. O estrago emocional dos ltimos sessenta minutos tinha sido to grande que no sei como cheguei ao fim do pequeno per de madeira onde 
Tim e eu estvamos sentados. E tambm pouco me importava. A nica coisa que sabia  nunca ter sentido tanta raiva, mgoa, depresso e tristeza na vida.
Em geral nunca choro na frente dos outros. A bem da verdade, quase nunca choro. Mas, depois das coisas todas pelas quais eu havia passado, no pude evitar. Virei 
uma manteiga derretida. E, do modo como Tim ficou ali sentado, escutando pacientemente minhas queixas, eu me sentia com todo o direito de chorar o quanto quisesse. 
Quem poderia imaginar um cara to atencioso por trs daquele jeito gozador?
Tim suspirou e balanou a cabea. 
- Porque ele  um panaca, Sara. Por isso. 
 
Mas ele no era um panaca. Ele era Josh, o cara por quem eu me apaixonara. Mesmo tendo testemunhado com meus prprios olhos, continuava sendo difcil acreditar que 
o Josh abraado com Raleigh era o mesmo Josh com quem eu havia passado o vero inteiro.
Mirava o Atlntico, com os braos em volta dos joelhos. Ao tentar enxugar as lgrimas, ocorreu-me uma idia que veio carregada de esperana: o meu Josh jamais faria 
uma coisa dessas. Tinha de haver uma explicao qualquer. E se...
-Vai ver eles comearam a se ver agora - eu comecei, dando uma olhada para Tim. - Quer dizer, quem sabe a Raleigh terminou com aquele antigo namorado dela e comeou 
a sair com o Josh. Ele deve ter ficado arrasado quando percebeu que no conseguiria entrar em contato comigo e...
- Aqueles dois esto juntos faz sculos - Tim me interrompeu. - Eles so meio que o casal Glendale. 
- Ah - sussurrei.
Meus olhos se encheram de lgrimas de novo e mergulhei de cabea na depresso. Essa no podia ser a minha vida. No podia estar acontecendo comigo. Belisquei-me 
s para ter certeza. No restava a menor dvida. O pesadelo tinha virado realidade.
- Pensei que ele me amava - falei, mais para mim mesma. - Sei que eu o amava... Ele foi o primeiro cara por quem eu senti isso.
- Que panaca -Tim resmungou.
- Ele  mais que um panaca; ele  um... um... Como ele pde me fazer uma coisa dessas! - exclamei uma vez mais, esmurrando a madeira do deque com os punhos.
- H caras que so muito burros mesmo - Tim disse. - E o Josh  o maior de todos. Escute, Sara, o melhor que voc tem a fazer  esquecer por completo essa histria 
de Josh Nelson. Simplesmente esquea que ele existe.
Olhei para Tim e enfiei as pernas na gua. Parece que isso teve um efeito calmante. Deixei escapar um suspiro trmulo.
- Sabe do que mais? Voc tem razo. Vou me esquecer dele para sempre.
- timo. 
 
Mas, ao olhar para a esplendorosa lua da Flrida, meu estmago deu vrios ns s de pensar na simples possibilidade de elimin-lo de minha vida. Como iria conseguir 
essa proeza?
- E se eu no conseguir?
- Conseguir. Acredite em mim.
- Acho que no vai dar, Tim. Panaca ou no, eu me apaixonei pelo cara. E essas coisas no somem assim da noite para o dia. Quer dizer, olha s meu pai... ele nunca 
esqueceu minha me.
Tim deixou escapar uma risada curta.
- Isso  um tanto diferente. Seu pai e sua me so pessoas extraordinrias, mas simplesmente no foram feitos um para o outro. Tem sido um pouco duro para seu pai 
entender isso. Mas ele vai acabar percebendo, quando encontrar a pessoa certa. O Josh, de outro lado,  s um idiota que no merece um nico olhar seu.
Fiquei calada por uns instantes, surpresa com seu grau de conhecimento a respeito do assunto. Provavelmente sabia mais a respeito de minha famlia que meus amigos 
de Portland; afinal, passava um bocado de tempo com papai. Em seguida, me dei conta de que ele havia conseguido fazer com que me esquecesse de Josh por uma frao 
de segundo. Talvez um dia eu tambm conseguisse superar aquela paixo.
- Est certo - falei baixinho. - O panaca agora  histria. 
Tim apertou-me a mo.
-  assim que se fala.
Mas, mesmo enquanto as palavras saam de minha boca, tinha conscincia de que no eram verdadeiras. Uma nica imagem dele me olhando direto nos olhos, uma rpida 
lembrana dos beijos trocados em nossa ilha particular seriam o suficiente para reatar qualquer coisa. Josh era tudo, menos histria.
Claro que poderia tentar esquec-lo.
Mas a verdade era que eu desejava t-lo de volta.

Haicais para Josh... que ele nunca vai ler

* * *

"Vero sem fim"
De manh, passeios.
 tarde, tnis.
Beijos so para a noite.

* * *

"O dia do encontro"
Eu era abelha.
At que te vi.
Nunca mais fui a mesma.

* * *

"Desiluso"
Pensei ser amada.
Mas seus olhos mentiam.
Perdi a confiana. 
 












Cinco 

No estava procurando Josh em todos os corredores da Glendale, naquela segunda de manh. No conferi o rosto de cada garoto que passou apressado por mim, depois 
do primeiro sinal. Certo. E tambm no tinha gasto mais de meia hora s para arrumar o cabelo e experimentar um novo tom de batom. Pattica. Era isso que eu era, 
pura e simplesmente uma criatura obsoleta e pattica.
Josh tem namorada, eu disse para mim mesma pela milionsima vez desde a sexta-feira  noite. Ele  um miservel, um tremendo de um panaca e quem me dera jamais t-lo 
conhecido. Quanto a isso, no restava a menor dvida. Mas aqueles olhos de um azul profundo haviam povoado todos os meus pensamentos, desde o tenebroso encontro 
no campo de futebol.
- Sai dessa, Connelly - falei em voz alta, enquanto me forava a andar de um jeito mais ou menos decidido pelo corredor. - V em frente e d a volta por cima.
Josh no era sequer meu tipo. Admito que era um cara bonito, inteligente e engraado Mas era tambm metido a gostoso. Para ele, no havia nada melhor na vida do 
que passar o dia correndo atrs de uma bola, enquanto mocinhas de saia curta sacudiam pompons coloridos. Na verdade, pior do que ser metido a gostoso era o fato 
de que Josh havia mentido para mim.
- Ei!
Meu trajeto foi repentinamente obstrudo por um objeto enorme. Preparei-me para ser extremamente rude com o que quer fosse, ou quem quer que fosse e que tivesse 
se interposto em meu caminho.
 
Em vez disso, minha respirao ficou presa nos pulmes. O objeto era nada menos que Josh em pessoa, o antigo amor de minha vida. Engoli aquilo que em uma outra garota 
com menos autocontrole teria sido um susto e tanto.
Suma da minha frente. V catar coquinho. Sabia que deveria cuspir tais palavras em um forro venenoso. Mas as mos dele envolveram minha cintura.
Josh olhou em volta para se certificar de que no tnhamos sido vistos, depois me puxou para dentro de uma salinha onde era guardado o material de limpeza. Aps 
todas aquelas semanas de anseios, estvamos a ss. Os corredores cheios da Glendale pareciam a centenas de quilmetros de distncia. Josh sempre conseguia me fazer 
pensar que ramos as nicas pessoas no planeta todo.
- Sara.
Que emoes haveria na voz dele? Remorso? Culpa? Ainda que no goste de admitir nem a mim mesma, eu torcia para que fosse desejo.
- Oi, Josh. 
Meu corao parecia querer saltar da boca, mas me forcei a respirar fundo. Josh tinha namorada! Ele ia ver s uma coisa. 
Bem que eu preferia que ele fosse menos... maravilhoso. 
Quando pegou minha mo, afastei seu brao e olhei-o de frente, com um olhar duro.
- No acredito que voc esteja aqui - disse. 
- Em carne e osso. - Literalmente. Fiquei feliz de estar usando um dos meus tops mais sensuais. As alas finas e pretas realavam meus braos muito bem torneados, 
e o decote acentuava o pouqussimo busto do qual me orgulhava possuir.
- Voc est linda. Como sempre. - Josh deu um passo a frente. Recuei um pouco, mas no muita coisa. Uma pilha de rodos e vassouras me impedia de ir mais alm. Josh 
estava to prximo que dava para ouvir sua respirao.
Fique firme, menina. Esse cara  um vigarista.
- E voc tem namorada.
- Ns precisamos conversar. - Mesmo na pouca luz daquela salinha, o cabelo loiro de Josh parecia macio e brilhante. Meus dedos ardiam por tocar nele. 
 
Entretanto, eu queria no embarcar em conversinhas moles sobre os bons tempos de outrora, belas recordaes e navios deslizando no mar. Josh havia me feito de boba, 
e eu no iria me esquecer disso. - No sabia que voc jogava futebol - falei, mudando de assunto.
- Voc me falou, logo que a gente se conheceu, que achava futebol americano um esporte de brutos. Voc disse, e eu repito, que "o futebol s atraa caras com uma 
necessidade tremenda de provar que tinham a cabea dura o suficiente e vazia o bastante para agentar srios danos cerebrais". - Josh me olhou bem nos olhos. Bem 
nos olhos mesmo. Meu corao bateu descompassadamente enquanto tentava no me perder na fundura daquelas duas piscinas azuis. 
- Quer dizer que voc se lembra.
Isso significava alguma coisa. Por exemplo, que eu no era s um passatempo barato de vero. Josh lembrava do que eu tinha dito. Infelizmente, o cara tambm tinha 
uma certa familiaridade com a mentira. Ele omitira Raleigh e mentira ao dizer que no jogava futebol. No que me dizia respeito, ele era de fato uma mulher vestida 
de homem. No dava para confiar em uma palavra que saa de sua boca.
- Eu me lembro de muita coisa, Sara. - E deu mais um passo na minha direo. No havia mais muita distncia entre ns.
Escapuli, driblando diversos baldes e uma pazinha de lixo. Mas estava com as costas grudadas na porta. Dava para sentir o metal frio da maaneta me cutucando os 
ossos.
-  mesmo? - Eu caa, caa, caa em um abismo fundo. 
Pelo visto, Josh pressentiu minha fraqueza.
- Ns no podemos conversar aqui - disse. - E no d para conversar agora.
Onde tinham ido parar todas as minhas respostas espirituosas, bem quando eu precisava muito, muitssimo, de uma? Minha mente era um vazio.
- Certo. - Muito bom, Sara. Uma boa sada.
- Vamos nos ver hoje  noite -Josh falou. - Eu vou estar na Pedra do Mandarim s oito da noite.
No fazia a menor idia de onde ficava essa Pedra do Mandarim, mas sabia que nada conseguiria me afastar de l. 
- Eu vou - prometi. - Quer dizer, vou ver se vai dar - corrigi, com um tom menos caloroso.
Demorou alguns segundos, mas eu havia recobrado a compostura. A velha Sara espreitava de algum lugar dentro de mim. O problema era como reencontr-la antes das oito 
da noite, quando ento, esse era meu pressentimento, aqueles olhos azuis penetrantes me olhariam com um calor mais intenso do que eu seria capaz de suportar.
E o que eu iria vistir?

***

L pelas 19h53, o mapa que Tim havia desenhado para mim j havia virado uma bolinha de papel. Claro que eu tinha decorado o caminho at a tal Pedra do Mandarim cinco 
minutos depois de ter tecebido as instrues. Continuava me sentindo um tanto culpada por ter inventado que queria tirar umas fotos para o curso de Fotografia Intermediria. 
Por outro lado, se eu tivesse contado a verdade para Tim, ele teria tentado me impedir de ir at l.
Assim que parei no cascalho do pequeno estacionamento, percebi por que Josh havia escolhido aquele local. A Pedra do Mandarim era enorme e ficava  beira-mar, rodeada 
por mais de uma dezena de pedras menores: a mesma paisagem do Maine.
Senti uma sbita onda de saudade de casa ao bater a porta do carro. No estado do Maine, em setembro e quela hora, o ar j estaria gelado. Ali, a temperatura continuava 
nos 27 graus. E no pude deixar de notar que eram palmeiras e no pinheiros que ladeavam o caminho at a pequena enseada.
Josh no estava  vista. Talvez fosse me dar o cano. Ou essa fosse a maneira de ele me dizer de uma vez por todas que eu havia sido uma idiota de achar que ele tinha 
gostado um pouco de mim no vero. Talvez...
- Nada que ver com o lago Vermillon, no ? - Josh surgiu do nada.
Estava parado logo adiante, em frente  pedra, sumariamente vestido com um shorts cqui que um dia tinha sido uma cala e uma mochila azul-marinho pequena nas costas. 
A verdade  que no h nada que se equipare  viso de um gato em um belo shorts. 
 
Andei o mais depressa que pude para alcan-lo.
- Pois . Eu vim. - Alm de sem flego, sabia que dava a impresso de estar ansiosa demais. Grande novidade. 
- Eu ajudo voc a subir. - Josh estendeu a mo e virou a cabea para a pedra colossal. Seis semanas atrs, eu teria agarrado a sua mo e o puxado para mim e muito 
provavelmente lhe dado um abrao, assim s por dar, sem motivo. Dessa vez, resolvi me contentar com a primeira parte. Agarrei seus dedos compridos e subi na pedra.
Nenhum de ns pronunciou uma palavra enquanto escalvamos at o topo da Pedra do Mandarim. Ao menos no em voz alta. Eu travava uma conversa desagradvel com a nuca 
de Josh, enquanto batalhava para no me desequilibrar em cima das novas sandlias fosforescentes de dedo. Voc  um gato. Voc  um ser humano desprezvel. Voc 
 tudo para mim. No, voc no  nada para mim. E l fui, trocando baboseiras mentais comigo mesma.
Quando cheguei no alto da pedra, percebi que a escalada semi-rdua tinha valido a pena. O Oceano Atlntico esparramava-se diante de ns, cintilando sob o sol poente. 
Talvez tenha sido uma alucinao, mas tenho quase certeza de ter visto alguns golfinhos saltando ao longe. Ah, isso era golpe baixo da parte dele. Quem poderia ficar 
brava em meio a toda aquela natureza?
- Desculpe no ter lhe dito nada a respeito da Raleigh - Josh falou. - Tinha a inteno de explicar a situao toda para voc, mas, sei l, nunca encontrei as palavras 
certas.
Apoiei a cabea nos cotovelos e fiquei vendo o mar.
- Voc mentiu para mim.
- No cheguei a mentir, exatamente, apenas deixei de lhe contar toda a verdade. - Josh tirou uma garrafa de gua mineral da mochila.
- Balela pura - retruquei. - Voc me deixou pensar que sentamos os dois a mesma coisa. Quer dizer, eu at disse para voc que... - Minha voz morreu, e as palavras 
ficaram presas na garganta. 
 
- Eu sei, eu sei. - Pela pressa com que me interrompeu, Josh tambm no queria que eu repetisse aquelas trs palavrinhas. Que burrice a minha. Alis, j devia estar 
cansada de saber que nunca se deve dizer a um cara "eu te amo", sem que ele tenha dito a mesma coisa antes. Essa era, bem, a regra nmero um da guerra entre os sexos.
- Voc est apaixonado por ela? - No era minha inteno fazer essa pergunta. Na verdade, eu tinha jurado a mim mesma que no a faria. Josh no merecia uma pergunta 
to emotivamente carregada quanto essa. A mim, que importncia tinha se ele amava ou deixava de amar a rainha da torcida?
Josh permaneceu calado pelo que me pareceu uma hora e meia, mas  mais provvel que tenham sido dez segundos.
- No sei - ele disse por fim. - Achava que sim, e a conheci voc.
- Ah. - Uau.
No era bem a resposta que eu esperava. Ou talvez fosse. Quem sabe no era justamente esse o motivo de eu ter feito a pergunta. Mas, com certeza, eu no havia previsto 
a sinceridade embutida no tom de voz dele.
- A Raleigh e eu crescemos juntos - Josh continuou. -Ela foi a primeira garota que eu beijei e a primeira garota que eu pensei em beijar.
- Isso j supera o nvel de informao que preciso - interrompi.
Josh suspirou:
- Sara, eu gostaria de dizer para voc que ela e eu vamos romper o namoro. Gostaria de convid-la para sair, pr minha mo no seu ombro e apresent-la a meus pais.
- Mas?- detestei o som agudssimo de minha prpria voz. 
- Mas nada disso  possvel. Raleigh e eu... bom, todo mundo espera que a gente fique junto. No posso desapontar ningum. - Josh deu um bom gole na gua e me passou 
a garrafa.
O gesto foi simples, mas meus olhos se encheram de lgrimas. Raleigh Stockton era a garota com acesso a todos esses gestos casuais e ternos: uma carona at a escola, 
uma ma no almoo, um aperto no ombro. Eu no tinha nada alm de um lbum com algumas fotos de pssima qualidade. 
 
- O que "ficar junto" significa, exatamente? - perguntei, - No me diga que todos esperam ver voc com ela pelo resto da vida.
Josh calou-se por um bom tempo.
- Voc tem de entender... ns temos os mesmos amigos. Quer dizer, ns somos praticamente uma instituio na Glendale. - Depois, ele encolheu os ombros. - Estaria 
mentindo se dissesse que nossos pais no torcem para nos ver casados algum dia.
Casados? Ns tnhamos dezessete anos de idade, e o cara j planejava se casar! A nica coisa pior do que as previses imbecis de Josh sobre seu casamento com Raleigh 
era ter passado as ltimas semanas tecendo fantasias sobre o meu casamento com ele.
- Voc deixou que eu lhe desse meu endereo - disse baixinho. - Sabia que nunca iria me escrever uma droga de carta, voc deixou que eu lhe desse meu endereo. -Soltei 
uma risadinha, uma daquelas risadinhas histricas de quem precisa de um calmante. - Eu lhe dei at meu telefone... E cheguei a pensar que voc iria me ligar.
- Acabaria escrevendo para voc. - Os braos bronzeados e quentes de Josh me envolveram os ombros, o que s piorou ainda mais as coisas. Na verdade, eu estava prestes 
a cair no choro.
Voc no vai chorar na frente dele; no vai! comandei a mim mesma. Virei o rosto para o outro lado.
- Tudo bem, no esquenta - sussurrei raivosamente.
Era tudo to injusto! Josh j tinha me partido o corao uma vez. Para que me arrastar at ali e me jogar Raleigh na cara de novo? No percebia quanto me magoava 
imagin-lo segurando a mo de uma outra menina? Queria que ele soubesse como isso doa. Queria que ele...
Girei a cabea furiosa e encarei-o.
- Olha, Josh, voc no foi o nico que mentiu - deixei escapar, sem pensar.
Ah, no. Ai meu Deus. Ser que tinha dito isso mesmo? 
Josh ficou plido.
- Como assim? 
Tinha.
- Eu... hum... tambm estou com uma pessoa. - Agora que eu havia comeado, no tinha mais como parar. E, ao ver quanto aquilo o incomodava, tambm no tive vontade 
de parar. - Algum que  tudo para mim. 
 
- No acredito. - Josh nem tentou disfarar a mgoa e a raiva da voz. Mgoa e raiva, dois sentimentos com os quais eu j tinha a maior familiaridade. Veja como  
bom, Josh.
- Mas estou. - Nossa, mais um pouco e eu tambm me convenceria.
Seus olhos me miravam com intensidade.
- No consigo pensar em voc com outra pessoa.  horrvel.
Queria me arrepender da mentira. Mas como? O cime de Josh significava muito para mim.
- Imagino que estamos quites, ento. Sinto o mesmo a respeito de Raleigh.
- Quem  ele? - Josh perguntou, com a voz alterada em vrios decibis. - Me diga quem  ele.
E a, Connelly, pensei c com meus botes, quem  ele?
- Isso no importa.
- Olhe para mim, Sarafina.
Meu corao derreteu. Sarafina. Josh me chamou por esse apelido o vero todo.
Virei a cabea uma frao de centmetros.
- No temos mais nada o que conversar - sussurrei. - No se preocupe. Seu segredo est bem guardado comigo. Raleigh jamais saber o que voc aprontou o vero inteiro. 
Ele sacudiu a cabea.
- No  com isso que estou preocupado. - Os lbios dele estavam insuportavelmente prximos dos meus. - Receio que no vou conseguir evitar. - Sua boca tocou a minha, 
enviando um raio de alta voltagem por toda a minha espinha.
- No, ns no podemos - sussurrei de volta. 
No v por este caminho, Connelly. No faa isso.
- No  certo beijar voc... - Josh no se afastara. Minha impresso, na verdade, era de que ele se aproximava ainda mais. Nossas pernas quase encostavam umas nas 
outras. - Nem um pouco certo. - Ignorei o sangue que me latejava no pescoo, com medo at de falar. Sem dvida que o tremor em minha voz seria a melhor demonstrao 
de quanto eu queria sentir os lbios dele nos meus.
- Senti tanto sua falta. - A voz de Josh era um murmrio rouco em meu ouvido. Suas mos passeavam por mim, tirando meu flego. 
 
- Josh... Josh. - Sabia que deveria mand-lo parar de me beijar, mas meu crebro havia se refugiado em algum lugar muito distante da cabea.
- Sara, voc  to linda. Meu Deus, senti falta de ter voc ao meu lado. - Seus dedos estavam entrelaados em meu cabelo e eu passei os braos em volta da cintura 
dele.
Puxei-o mais para, perto, queria senti-lo junto de mim.
Josh afastou os lbios. Ser que nos beijamos apenas por um instante ou por toda a eternidade? No tinha idia. 
- No devia ter feito isso.
- No.
Mas, ah, fora to bom. Tentei imaginar o rosto gentil e simptico de Raleigh. Tudo o que consegui ver foi um narizinho irritantemente arrebitado e uma franja dura 
de gel.
- Preciso ir andando. - E no mesmo instante ps-se de p - Tchau. - Num piscar de olhos, Josh havia desaparecido pela lateral da pedra, de.xando-me com a tarefa 
de encontrar meu prprio caminho de volta.
O corao continuava disparado. Minha impresso era a de que seriam necessrios vrios tanques de oxignio para normalizar os pulmes. Eu me sentia ao mesmo tempo 
arrasada e nas nuvens, uma combinao perigosa para qualquer garota. Mas daria um jeito de achar o caminho para sair dali. Assim como continuaria dando um jeito 
de achar o caminho das outras sadas, no importando o que tivesse ocorrido entre Josh e eu. 
 
Sara reflete sobre o significado dos sonhos... e dos pesadelos

***

Ontem  noite, sonhei que nadava no mar, s que a gua era quente - quase como numa banheira. Eu estava vestida com roupa de mergulho e comecei a descer com o peso 
do. equipamento. Mas eu no conseguia mergulhar de fato porque no sabia como. Enquanto isso, Tim divertia-se  bea l embaixo, examinando os peixes e as plantas 
marinhas.
Enquanto mexia as pernas para me manter na superfcie, vi Josh passar em uma prancha de surfe to pequena que mais parecia um esqui do que uma prancha. Eu o chamei, 
mas no consegui ouvir o que ele me disse por causa do barulho das ondas. Assim que se foi, no lugar dele apareceu a barbatana de um tubaro gigantesco. Comecei 
a gritar e esqueci que devia continuar batendo as pernas nas guas revoltas. Fui afundando.
O tubaro foi chegando cada vez mais perto. Tinha certeza de que iria morrer afogada, mas no ltimo segundo senti os braos de Tim em volta de minha cintura.. A 
acordei.
Muitos psicanalistas e gurus dizem que os sonhos so significativos. Certa vez uma senhora me disse que, se voc se colocar no lugar de cada objeto com que sonhou 
e enxergar o sonho da perspectiva daquele objeto, conseguir entender o que o subconsciente est tentando lhe dizer. Tentei fazer isso com esse pesadelo, mas tudo 
o que obtive foi um emaranhado confuso.
Tenho um medo irracional de tubares. Digamos que nunca deveria ter alugado o filme Tubaro junto com Maggie na stima srie. E basta. 
 
















Seis

- Sara, voc est me ouvindo? - Tim perguntou, provavelmente no pela primeira vez, na tera-feira  tarde. Ele estava no meio de uma longa lista de termos de mergulho, 
que eu deveria conhecer, antes de minha primeira aula na gua.
Pisquei e dei uma espiada pela sala de estar to aconchegante de papai.
- Hum... estou. Voc me dizia alguma coisa sobre desfibriladores de ar.
Tim balanou a cabea.
- Um desfibrilador  o que o mdico usa para ressuscitar o cara que foi atropelado. Eu estava falando sobre descompressores de ar.
- Certo, certo.
Admito que me achava um tanto fora de rbita. Acontece com as melhores pessoas. Ou, no meu caso, com as piores.
Tinha passado as ltimas vinte e quatro horas em um estado quase catatnico. Na noite anterior, voltando da prais, havia um verdadeiro turbilho dentro de mim. Durante 
os primeiros minutos, dirigi feito uma autmata, rgida ao volante, horrorizada por ter mentido a respeito de um pretenso namorado. E se Josh descobrisse a verdade? 
A eu ficaria com cara de idiota total. Entretanto, nos quilmetros seguintes, comecei a pensar nos cimes que ele sentiu ao saber do suposto namorado. Depois, abri 
um sorriso besta ao lembrar daquele ltimo beijo, to besta que vi at reflexos dos meus dentes brancos no espelho retrovisor.. Em seguida, ca no choro. Por mais 
fantstico que tivesse sido, era tambm nosso ltimo beijo. Josh havia me magoado mais que qualquer outro garoto.
A alguns passos de mim, Tim jogou para o lado os ps-de-pato e desabou sobre o velho sof esverdeado.
- Voc precisa parar de pensar naquele panaca. Est perdendo seu tempo com ele. E, para ser bem sincero, o meu tambm. Voc no escutou uma palavra do que eu falei.
- Escutei sim. E eu no estava pensando nele. Estava simplesmente fazendo uma anotao mental para conversar com meu pai a respeito daquela rachadura na parede. 
Acho que ele devia mandar ver o que .
 
- Hum-hum. - Tim estendeu as pernas, cruzou as mos atrs da cabea e fechou os olhos. Dali a segundos, roncava.
Hum... Meu instrutor de mergulho pegou no sono no meio de uma aula. Sem sombra de dvida, era uma guinada inesperada nos acontecimentos. Pelo visto, tornei-me to 
chata que nem mesmo Tim consegue agentar acordado a minha companhia. Talvez Josh tambm me achasse chata.
Fui at o sof e dei-lhe uma cutucada de leve no ombro:
- Tim? - chamei baixinho. - Tim, voc est acordado?
Sem mais nem menos, a mo dele deu um tranco para cima e agarrou meu pulso. - Sentiu minha falta? - A fora daqueles dedos me surpreendeu. - Sentiu? - Tim repetiu.
Livrei o pulso.
- O que voc est tentando provar?
Tim endireitou-se no sof.
- Estou fazendo uma demonstrao. Voc est to desatenta que podia perfeitamente estar dormindo. E, a menos que eu no tenha entendido direito, sou eu quem est 
fazendo um favor a voc. - Ergueu uma sobrancelha. - Eu podia estar assistindo ao |ogo de beisebol com o Ed e o Soren nesse exato instante.
Onde estava o garoto paciente da outra noite? Aquele Tim decididamente acreditava em amores brutos. Mesmo assim, eu sabia que as intenes eram boas. S queria que 
eu superasse aquela histria com o Josh.
- Desculpe, desculpe. O panaca est esquecido. - Sei, conta outra. - Apanhei uma das mscaras de mergulho que Tim havia levado e enfiei na cabea. - Estou pronta 
para prestar ateno agora, Majestade.
Tim me lanou uma olhadela muito ctica.
- Acho que voc est pronta para fingir estar prestando ateno ao que eu tenho para dizer.
Arranquei a mscara e joguei-a no colo de Tim.
- Ontem, sonhei a noite toda com tubares. - Era verdade, mas estava usando meu pesadelo como forma de desviar a conversa para outros rumos. Minha desateno aproximava-se 
perigosamente do nvel de ateno de algum assistindo besteiras na televiso.
Tim soltou um gemido.
- Essa lio  uma farsa. Vamos parar por aqui.
Dei de ombros. 
 
- Por mim, tudo bem. Que tal se a gente fizer uns hambrgueres de verdade na churrasqueira? - Papai tinha ido passar a tarde em uma colnia de artistas, a cinqenta 
quilmetros de casa, deixando-me uma rarssima oportunidade de comer carne sem ouvir extensos sermes sobre produtos qumicos e condies brutais de criao e abate.
- Vou lhe preparar os melhores hambrgueres que voc j comeu na vida - Tim props. - Com uma condio.
- Qual? - perguntei, com a mente a zilhes de quilmetros dali. Josh e eu tnhamos preparado hambrgueres juntos. Hambrguer, cachorro-quente e frango. Quase podia 
sentir o aroma do molho de churrasco, enquanto lembrava daquelas noites frescas do Maine.
- Voc vai ter de se concentrar em nossa experincia culinria e parar de pensar naquele cara, como est fazendo agora.
Pisquei de volta para Tim.
- Eu no estava pensando nele.
- Certo. Tambm no estou pensando que estou sozinho com uma bela garota pela primeira vez em mais de um ano.
Certo. A pausa foi meio embaraosa. Tremendamente embaraosa para mim.
- Hum... o qu?
Tim abriu um sorriso.
- S quis me certificar de que voc estava prestando ateno.
- Voc  um panaca, sabia?
Ele continuou sorrindo.
- Bom, voc  bonita, embora meio equivocada.
- Obrigada por coisa nenhuma, Kaplan. - Mas fui obrigada a rir. Sem dvida ele sabia erguer minha moral.
- E ento, quer acender a churrasqueira, enquanto isso?
- Claro. E, para a sua informao, no falta muito para eu superar de vez tudo isso - expliquei a ele, tentando desesperadamente me convencer de que aquele nosso 
beijo tinha sido um amargo e doce beijo de adeus, do tipo Romeu e Julieta. Josh achava-se indisponvel, e eu teria de seguir em frente. Ponto final.
Tim parou na soleira da porta da cozinha e virou-se.
- Voc sabe que o Josh no merece toda essa energia mental que voc est gastando com ele, no sabe?
Do que ele falava? Exceto pelo fato insignificante de que ele havia mentido para mim, Josh era praticamente perfeito. 
Do que ele falava? Exceto pelo fato insignificante de que ele havia mentido para mim, Josh era praticamente perfeito.
- A que voc se engana. Josh  um cara fantstico.
- Ele  charmoso.  popular.  um timo atleta. Mas no tem nada de fantstico.
Depois de me encarar por uns momentos, Tim acrescentou: - Pense s no jeito como ele a tratou. 
- Voc nem sequer o conhece! Tim deu de ombros.
- Fiz algumas matrias com ele. Na verdade, no ano passado. fomos parceiros no laboratrio de biologia. Eu o conheo bem o bastante.
E, com isso, Tim entrou na cozinha.
Fiquei sozinha no meio da sala, sentindo-me perdida. Tim estava enganado. Tinha de estar. No havia a menor possibilidade de eu ter optado por me apaixonar pela 
primeira - e possivelmente ltima - vez na vida por algum menos do que fantstico. Eu era inteligente demais para isso. No era?
Puxa, antes, quando eu morava no Maine, a vida no era to complicada assim. Estava um trapo e no havia ningum a quem recorrer. Pelo menos ningum nesta cidade, 
nesta casa, nesta sala. Tim obviamente j no agentava mais ouvir falar de Josh. Mas eu ainda tinha uma grande amiga. Logo depois do jantar, eu ligaria para Maggie 
e pediria um conselho. E consolo.
Na quarta-feira  tarde, abri caminho pelos corredores da Glendale, para variar abarrotados de gente. No conseguia parar de pensar em Clarissa Dalloway, a protagonista 
de um livro que estvamos lendo nas aulas de ingls. Em seu romance intitulado Mrs. Dalloway, Virginia Woolf no poderia ter criado um personagem mais diferente 
de mim. Quero dizer, a pobre Clarissa  uma velhinha inglesa empertigada que passa boa parte do tempo preocupada com arranjos de flores e o polimento de sua prataria. 
 
Do outtro lado, conseguia ver os paralelos entre os sentimentos de Clarissa e os meus, como se o equilbrio de toda uma vida estivesse suspenso por um fio invisvel. 
A certa altura, Virgnia Woolf descreve Clarissa como algum "estranhamente cnscia de seu chapu" ao trocar algumas simples palavras com um cavalheiro com quem 
cruza na rua. Era exatamente como eu me sentia: estranhamente cnscia de tudo. Ser que algum sabia que estava secretamente apaixonada por Josh? Ser que, quando 
eu passava pelos corredores com uma apatia de dar d, as outras pessoas enxergavam a angstia em meus olhos? Tim tinha sacado isso tudo.
Parei diante de meu armrio e me obriguei a dar algumas respiradas fundas para desanuviar um pouco as coisas. Eu no estou estranhamente cnscia de nada. No estou.
O bilhete grudado no armrio chamou a minha ateno na hora. E eu no tinha a menor dvida de sua autoria. Peguei o quadradinho de papel e desdobrei-o com um cuidado 
que talvez se devesse ter com um livro raro.
Quase no desejava ler as palavras que Josh havia escrito. Se isso fosse um adeus... ento era um adeus. Mas, naquele instante, parada diante dos garranchos dele, 
as possibilidades eram infinitas.

***

Querida Sara,

Preciso v-la. No consigo parar de pensar em voc. Sei que as coisas esto complicadas. E a culpa  minha. Mas voc no pode me eliminar de sua vida. Simplesmente 
no pode. Encontre-me no parque, perto da barraca da cartomante, no sbado a tarde. 

Por favor.

***

Josh no assinou o bilhete. Nem era preciso. Li e reli a carta umas vinte vezes, com o corao batendo to descontroladamente que tive medo de um ataque cardaco. 
 
Depois me lembrei das palavras de Tim: A melhor coisa que voc pode fazer  esquecer Josh. Amassei a folha de papel, decidida a jogar o bilhete fora e expulsar de 
mente para o todo o sempre o que estava escrito ali. Inspirar. Expirar. Quem eu tentava iludir? Aquele bilhete iria direto para debaixo do meu travesseiro. Mais 
que depressa, desamarrotei o pedao precioso de papel e alisei-o o mximo que pude. Em seguida, dobrei-o com o maior cuidado at transform-lo em um quadradinho 
de nada, beijei-o e enfiei-o no bolso da frente de minha Levi's.
Josh e eu no tnhamos perdido a magia que costumava fluir entre ns no acampamento Quisiana! As emoes continuavam l, to fortes ou quem sabe mais fortes ainda 
que aquelas vindas durante o vero! Apaguei a imagem do sorriso amistoso de Raleigh da cabea com um suspiro de alvio.
Josh e eu iramos acabar juntos, no fim das contas. Uma namorada era um obstculo em nosso caminho, sem dvida. Mas os obstculos eram romnticos, eles torturavam 
e forneciam pontos dramticos de sustentao ao enredo. Josh estava pronto para terminar com Raleigh e eu, pronta para assumir o comando do mundo.

***

O sol quente aquecia minha cabea, enquanto rodeava a barraquinha de madame Zora, a cartomante, no sbado  tarde. Era minha primeira visita ao parque de diverses 
de Bay Beach e, at o momento, sentia-me decepcionada com os parcos brinquedos e jogos disponveis. Havia uma montanha-russa, pequena e caqutica, uns poucos carrinhos, 
que no precisavam de mais nenhuma trombada para se aposentar, e uma fileira de barracas de jogos. Entretanto, este era o lugar onde eu iria me encontrar com Josh 
e, portanto, sabia que sua imagem ficaria guardada em meu corao pelos prximos quarenta ou cinqenta anos.
Se ao menos Josh aparecesse. Dei uma olhada no relgio, j ciente de que o ponteiro grande ultrapassava o seis. Josh estava meia hora atrasado. 
 
Trs meses atrs eu teria esperado cinco minutos por um carinha. Teria me aproximado da barraca da cartomante, observado o atraso e ido direto para o shopping me 
encontrar com Maggie. Fim do encontro, fim da histria, fim do cara. Mas agora l estava eu, fazendo hora em um parque de diverses feito um filhote de cachorro 
perdido no acostamento da estrada. Pattico. 
Hum... sujeitinho mal-educado  direita. Olhei para o outro lado, rezando para que um raio o atingisse em cheio. No tive sorte. Estava sendo secada por um sorriso 
seboso. J at ouvia as frases imbecis da paquera.
O indivduo vinha se aproximando, cada vez mais.
- Ei, doura, que tal se a gente desse uma voltinha no Tnel do Amor?
Olhei para o bon cor-de-rosa dele, com os dizeres Surf Naked: "surfe nu". Argh!
- V se no amola, cara - disse a ele.
- P, gata, s estou tentando levar um papo amigvel. - O tal surfista me olhava por trs da franja mais comprida e oleosa do mundo.
- No escutou, cara? No amola. - Josh apareceu do nada. O cara mau que havia pouco tinha me dado o cano no encontro indiscutivelmente crucial de todo o nosso conturbado 
relacionamento transformava-se em meu grande heri. Ah, o amor.
Josh avanou um passo na direo do pseudo-surfista, salientando o fato de ser pelo menos cinco centmetros mais alto e ter uns dez quilos de msculos a mais que 
meu infeliz pretendente. O sujeito recuou, derrotado.
- Desculpe... eu, hum... eu no sabia que ela estava acompanhada.
Depois de olh-lo com olhos enfezados, Josh disse:
- Pois est.
Um arrepio gostoso me subiu pela espinha. Eu estava acompanhada. Adorava a sensao de estar "acompanhada", ainda que por um cara mau que j tinha namorada. O feminismo 
padro das mulheres "modernas-poderosas-e-independentes" cedeu lugar ao romantismo do sculo XIX. Ento, t. Virei-me para Josh.
- Obrigada. 
Ele sorriu.
- No h de qu. 
 
Fitei aqueles olhos azuis tentando no esquecer a sua meia hora de atraso e a minha fria. Mas a nica coisa que me veio  cabea  que ele ficava lindo de bermuda 
Levi's e camisa abotoada.
- Onde foi que voc se meteu? - fiz uma fora danada para imprimir uns sinais de acusaao em meu tom melado.
Josh baixou os olhos. 
- Desculpe. Eu, hum... tive um probleminha em casa.
O libi de Josh tinha o nome de Raleigh estampado de todos os lados. 
- At onde voc acha que vai minha burrice? Voc estava com a Raleigh.
- Se  para falarmos sobre isso, vamos nos sentar. - Josh me pegou pela mo - no, eu no protestei - e me levou at um banco de ferro, na lateral do parque.
- Foi voc que quis me ver hoje - falei, enquanto me sentava. - Foi voc que deixou um bilhete em meu armrio, no eu.
- E queria muito ver voc... eu quero ver voc. - Josh comeou a passar as mos pelo cabelo. - S que eu no sabia, quando escrevi aquele bilhete, que meus pais 
tinham convidado a Raleigh e os pais dela para fazerem um brunch hoje l em casa. No tive como escapar.
A simples idia de Josh, Raleigh e os respectivos pais sentados em volta de panquecas e bacon me fez querer vomitar todo o cereal que tinha ingerido pela manh. 
De repente, me senti tomada pela raiva. Odiava Raleigh. Odiava os pais dela. Odiava Josh. Odiava os pais de Josh. Odiava todo mundo.
No ia permitir que Josh alimentasse minhas esperanas, s para depois ver a namorada dele ocupando todo o espao. Josh precisava sofrer.
- Escute, tive de cancelar um encontro para vir at aqui, hoje - ouvi minha prpria voz dizer. - Mas pelo menos cheguei na hora.
Ai, cara. Por que fui fazer isso?
Assim que percebi o brilho de cimes nos olhos dele, no entanto, entendi exatamente por que tinha mentido. 
 
- Que encontro? Com quem? - ele quis saber.
- Com ele. Com o cara de quem lhe falei no outro dia. - Pois , tinha entrado de sola no terreno do absurdo. Mas quem haveria de me culpar?
- Pensei que o cara tivesse ficado no Maine! -Josh praticamente gritou. - Ele mora na Flrida?
Meneei a cabea, horrorizada e, ao mesmo tempo, satisfeita com a reao dele.
- Mora. Ns nos conhecemos alguns anos atrs, na Disney World. - Nunca estive na Disney World, mas no me parecia haver motivo nenhum para permanecer atracada  
realidade, quela altura dos acontecimentos. - Bom, mas o fato  que ns, hum... trocamos cartas e conversamos por telefone o tempo todo. Quando soube que iria me 
mudar para c, para morar com meu pai. percebemos que nosso romance estava fadado a acontecer. 
- Diga o nome dele - Josh exigiu.
Minha mente enconttava-se inteirinha em branco. Nome, nome, nome. Qualquer nome serve.
- Ele se chama Tim - falei sem pensar. - Tim Kaplan. - Ixe. Um enorme ixe.
- Tim Kaplan  o homem misterioso da sua vida? - Josh exclamou. - Voc est namorando o Tim Kaplan? Meu parceiro de laboratrio.
Opa.
- ... estou.
- Ento era por isso que vocs estavam juntos no futebol.
- Hum-hum. - Engoli em seco. - Por isso.
- Isso  muito ruim - Josh sussurrou. - Muito, muito ruim.
Voc nem faz idia de como  ruim. pensei com meus botes.
Dei uma olhada para a barraca da cartomante. Sabia exatamente o que Madame Zora teria visto em meu futuro: desastre. De qualquer modo, seria preciso convencer Tim 
a bancar meu namorado. Mas estava com um pressentimento muito forte de que essa seria uma tarefa difcil at para aquelas princesas guerreiras de desenhos animados. 
 





























Sete


Aps meia hora discutindo o assunto, Josh e eu chegamos  concluso de que quela altura o melhor era ir em frente com o encontro. Afinal de contas, j estvamos 
na praia mesmo. E nenhum de ns tinha planos ou coisa do gnero.
Tudo bem. Duas pessoas normais teriam encerrado o assunto logo aps cada qual ter proclamado seu amor por algum diferente. Depois da mentira deslavada, qualquer 
garota normal teria reconhecido a situao embaraosa em que tinha se metido e procuraria se safar com graa, tendo em vista a situao.Pelo jeito, nem Josh e eu 
ramos normais. Verdade que eu havia ligado para meu pai, avisando que iria chegar tarde. Est bem, reconheo: fui fraca. A verdade  que queria ficar com Josh e 
no deixaria a lgica atrapalhar meus planos.
Josh e eu passamos as horas seguintes nos divertindo nas barraquinhas de jogos, entupindo-nos de algodo-doce e andando na j gasta montanha-russa do parque. Era 
o tipo de tarde com a qual eu tanto sonhara na poca em que Josh e eu estvamos separados por quase metade da costa leste.
- Foi uma tarde bem legal - Josh ia me dizendo. - Foi como se a gente estivesse de novo no Maine, antes que todas essas outras coisas acontecessem.
- Eu sei - respondi com um suspiro. -  incrvel.
Estvamos sentados na praia, fazendo um banquete composto por batatinhas fritas, sanduches de peru defumado e refrigerante. Nunca senti sabor melhor em uma comida. 
O sol tinha se posto havia mais de uma hora, e o cu estava coalhado de estrelas como sempre. Exceto por alguns detalhes no to insignificantes, a vida estava perfeita.
- Vamos conversar - disse Josh, puxando-me para perto.
Acomodei-me dentro daquele abrao quente e apoiei de leve a cabea em seu ombro.
- Sobre o que voc quer conversar? - murmurei. Todos os assuntos mais graves haviam escorregado para a rebentao e sido levados pelas ondas.
- Sobre ns. - Josh pousou de leve os lbios sobre a minha testa a apertou-me um pouco mais.
Endireitei o corpo.
- O que, sobre ns?
 
- Acho que estamos apaixonados . - Josh falou essas palavras de um jeito to natural que de incio me perguntei sepor acaso eu no teria entendido mal algum comentrio 
irrelevante dele a respeito do tempo. - Pelo menos eu estou apaixonado por voc.
Meu corao era um verdadeiro tambor. Dessa vez seria para valer. 
 
- Eu tambm amo voc - sussurrei.
- Mas estamos ambos comprometidos com outras pessoas - Josh prosseguiu. - No posso terminar com a Raleigh, no por enquanto. E voc falou que no quer magoar o 
Tim.
Certo, admito que as mentiras no pararam no banco de ferro do parque.Talvez eu tenha elaborado um pouco a imensa paixo que Tim sentia por mim enquanto estvamos 
na fila da montanha-russa. E quem sabe tenha at mencionado que a vida de Tim, se algum dia ns terminssemos, no teria mais sentido nenhum. Que ele se sentiria 
forado a largar a escola e mudar-se para o Parque Golden Gate em San Francisco, onde viveria em uma barraca de lona, alimentando-se apenas de sementes de dente-de-leo 
e casca de rvore. Sempre tive uma imaginao, digamos, muito frtil.
- Hum-hum... - Eu continuava enlevada com a declarao de amor de Josh. Qualquer coisa mais articulada que um punhado de grunhidos de mulher das cavernas me parecia 
impossvel quela altura.
- Mas ns queremos continuar a nos ver. Ns queremos ficar juntos. - Josh virou-se e me olhou bem nos olhos, do jeito que s ele sabia fazer. - Ns queremos continuar 
nos beijando como fizemos debaixo daquele per.
E l se foi meu corao de novo, a pelno galope. Aquele beijo sob o per tinha durado bem uns vinte minutos.
- Hum-hum - repeti, tolamente.
- Ento, eu pensei que talvez a gente possa continuar com esse relacionamento. Ns podamos nos ver de um jeito assim meio excepcional.
- Excepcional? - perguntei. - O que significa isso?
- A gente podia se ver em segredo - Josh respondeu. - Como estamos fazendo hoje.
Deveria ter me levantado e ido embora. Nao, deveria ter dado um tapa na cara de Josh e depois me levantado e ido embora. Mas no fiz nada disso. Continuei sentada 
l, feito uma idiota.
- Oh.
- O que quero dizer  que ns vamos acabar sendo um casal normal de namorados - Josh continuou, mais que depressa. - Mas antes precisamos de um tempo para terminar 
com a Raleigh a com o Tim, numa boa, sem brigas. 
 
- No sei, no.
No estava conseguindo juntar coragem para dizer um no definitivo.
Josh mexeu-se na areia, de modo que ficamos cara a cara. - Diga que concorda, Sara. Por favor.
Ele estava implorando. Josh estava implorando para eu enganar meu namorado e continuarmos nos vendo. O fato de eu no ter namorado era um detalhe irrelevante. S 
que ele tinha namorada, uma namorada legal. E ento teve incio um debate animado l dentro de mim. Aceitar a proposta de Josh iria de encontro a tudo em que eu 
acreditava. Mas, se eu dissesse no, estaria me privando daquilo que mais queria no mundo.
- Josh, eu amo voc, de verdade - sussurrei. - Mas no posso magoar o Tim. - Ser que tinha acabado de dizer isso? Nossa, pelo visto at eu j comeava a acreditar 
que Tim e eu ramos um casal de namorados firmes. Porque cargas d'gua fora me meter em tamanha confuso?
Fitei os olhos azuis de Josh. Claro, eis a o motivo.
- Ningum precisa ficar sabendo - Josh disse.
Isso no era inteiramente verdade. Eu teria de dizer alguma coisa para Tim. E duvidava seriamente que ele concordasse em levar adiante aquela mentira, sobretudo 
sem me obrigar a lhe contar o motivo exato. Tim era esperto demais para acreditar que essa histria de se fingir de namorado era s por farra, um capricho meu. Ele 
no se deixaria enganar; o cara tinha uma viso de raio x de minha alma.
- Sara, a gente tem de ficar junto. - Josh ps as mos em meu rosto e me puxou.
Quando nossos lbios se uniram, o pacto j estava selado, registrado, assinado e com firma reconhecida. Eu iria concordar com aquilo. Sabia que sim. Josh tambm. 
E, em algum lugar do universo, quem quer que fosse o encarregado das foras do carma j havia sido informado, sem sombra de dvida. A grande verdade  que eu no 
podia dizer no. E encontraria um jeito de fazer Tim entender que isso era de suma importncia para mim. Tinha de encontrar.

* * * 

O que eu vou dizer ao Tim?O que eu vou dizer ao Tim?
A pergunta se repetia em minha cabea sem parar. Sentada no deque de papai, longe de Josh, comeava a perceber com mais nitidez o absurdo total de minha mentira. 
Como tinha deixado as coisas irem to longe?E como poderia fazer para que Tim concordasse com aquela tramia?
- Voc est no mundo da lua por causa daquele panaca ou est apenas curtindo a lua?
Assustada, ergui os olhos e vi Tim caminhando em minha direo.
-Tim!Oi!- Ser que minha voz sara um tanto animada demais? Ser que ele havia percebido que eu estava tentando ocultar meu sentimento de culpa por t-lo envolvido 
em uma mentira?
-Aposto como as aulas de mergulho esto no topo de sua lista de prioridades.- O tom de voz foi suave.
Ai, minha nossa. Eu havia me esquecido completamente do combinado e no fora  tal aula. Desde aquele bilhete de Josh, todos os outros planos desapareceram de minha 
cabea. J eram nove horas da noite e uma aula de mergulho quela altura seria invivel.
-Tim, me desculpe. Eu, hum..._ Minha voz sumiu. Ns dois tnhamos plena conscincia de que no havia como me safar dignamente daquele cano.
- Que beijo, hein?- Tim continuou, preenchendo o momento de silncio- Eu daria nota dez, s que no acho que o Josh merea essa nota.
- O que?- Minha cara era de espanto total.- Quando foi que voc viu a gente se beijar?
- Eu fui at o parque de diverses, depois que voc me deixou plantado e no apareceu- Tim explicou, sentando-se a meu lado no deque- Queria conferir o trabalho 
de um artista local, que vende as coisas dele por l.
- Ah.- Dizer que eu me sentia uma idiota seria muito pouco.
- O que voc est fazendo com o Josh, Sara?- Tim curvou-se, tirou as sandlias e mergulhou os ps na gua fria do mar.- Pensei que tivssemos feito um acordo e que 
ele fosse histria. 
-Eu sei, mas, bom,  que eu... Eu estou apaixonada por ele. Ns estamos apaixonados.- Certo, at a era tudo verdade.
-Ele terminou com a Raleigh? No acredito.- Tim desconfiou.
Mais do que tudo neste mundo, eu gostaria de poder ter respondido sim a essa pergunta.
-No exatamente- foi o mximo que pude dizer- Ele no quer mago-la.
Tim me deu uma olhada.
-Nesse caso, por que ele estava beijando voc?
-Ns, hum... chegamos a um acordo.- Tudo pareceu to lgico quando Josh e eu estvamos sentados na praia, mas depois me senti levemente nauseada. E fornecer a Tim 
todos os horrendos detalhes iria revirar ainda mais meu estmago. 
-Que tipo de acordo, se me permite perguntar?
-Ns vamos continuar nos vendo... discretamente... at que Josh possa terminar com a Raleigh sem muito choro.
-Voc ficou louca?- a voz de Tim saiu meio ardida- Isso ... isso ... totalmente, completamente nojento.
Pois muito bem, ele tinha conseguido me irritar. Verdade que esse no era o momento mais brilhante de minha existncia na condio de cidad digna do planeta. Mas 
tudo isso era em nome do amor.
-Obviamente voc nunca se apaixonou. Se soubesse o que  o amor, voc entenderia... o que ele s vezes nos obriga a fazer.
-ser que voc tem noo do est dizendo? Est mais parecendo personagem de novela barata.
Uau. Eu no iria escapar assim to fcil. Comecei a entrar em pnico. E se ele no concordasse em apoiar minha mentira?
-Pelo amor de Deus, no conte a ningum que voc viu a gente se beijando, Tim.
Depois de um suspiro profundo, Tim concordou. 
 
-Bem... tem uma outra coisinha.
No foi possvel evitar uma careta: estava me preparando para pedir algo absurdo ao melhor amigo que eu havia arranjado na Flrida. A situao era pavorosa. Mas 
eu precisava pedir. A simples idia de Josh descobrir que eu havia mentido e que no tinha namorado nenhum era dolorosa demais para ser contemplada.
-Tenho medo at de perguntar o que - Tim falou com secura.
Respirei fundo. L vai.
-Eu disse ao Josh que voc  meu namorado- falei bem rapidinho, torcendo para que a mera velocidade conseguisse tirar um pouco do impacto das palavras.
-Voc o qu?- Tim exclamou.-Por qu?
-No sei. Mas foi o que eu disse para ele.
Como explicar os cimes que vinham me corroendo a alma desde aquela noite do futebol, quando vi Josh abraando Raleigh? Impossvel fazer Tim compreender o mais bsico 
dos instintos humanos, que me deixava desesperada para magoar Josh tanto quanto ele havia me magoado. Nem eu entendia.
-Bem, ento vai ter de desdizer. Eu quero distncia dessse tringulo srdido.
-No vai dar.- Minha voz era pouco mais que um sopro,mas saiu firme- Tarde demais. 

- Por que?
- Porque eu inventei um monte de coisas para ele, que a gente se encontrou na Disney World, que voce me escreveu quase todos os dias durante esses ultimos dois anos.
- Voce  completamente doida, sabia? - Pensei ter vislumbrado um tom mais ameno na voz de Tim. - Nunca vi ningum igual.
Tinha quase certeza de ter visto os lbios de Tim se curvarem em um sorrisinho leve.
- Voc est sorrindo? - perguntei. Tim deu de ombros.
- Fazer o que? A loucura  engraada.
- Isso significa que voce vai me apoiar na idia de formarmos um casal?
Ele me fitou um bom tempo com uns olhos castanhos que pareciam carvo em brasa.
- Depende. Eu recebo os benefcios que um namorado receberia?
Benefcios? Ser que ele estava falando do que eu imaginava? Claro que sim, Connelly; do que mais ele estaria falando? Por algum motivo cretino, meu corao disparou 
com a simples idia.
- Hum... no. Quer dizer, a gente no est de fato namorando, de modo que acho que no ...
A intensidade esvaiu-se do olhar de Tim.
- Relaxe, Sara. Eu estava s brincando.
- Ah, certo. Quer dizer, claro, eu sabia que sim. - Por que meu corao continuava a bater to forte? Desviei a vista e fiz um esforo para me concentrar na questo 
em pauta. - Ento, voc topa?
Tim meneou a cabea, com um gesto de assentimento.
- Por voc, eu topo. - Calou-se uns instantes. - Mas no aprovo. Pensei que voc estivesse acima disso. Acho que me enganei.
Senti uma inesperada pontada de dor com a censura de Tim. Mas empurrei o sentimento para um canto deserto de meu crebro e me concentrei em um s fato: eu consegui 
o que queria. Suspirei, aliviada. Levaria um certo tempo, mas com a ajuda de Tim, tudo iria dar certo, do jeito como estava escrito. 
 
Querida Maggie,
J passa da meia-noite, e amanh tenho prova de Clculo. Mas dormir como, eu pergunto? Finalmente, as coisas esto entrando nos eixos. Josh e eu declaramos amor 
eterno e prometemos nunca mais nos separar!
Certo, talvez esteja enfeitando um pouco as coisas, mas voc entendeu.
Sobre a nossa conversa na outra noite: claro que o Matt est dizendo a verdade quando diz que gosta mais de voc que de qualquer outra garota com quem j namorou. 
E tenho certeza de que seu novo corte de cabelo no ficou to ruim quanto voc imagina. Mas  s pedir que eu te mando minha peruca pelo correio. Sei como  importante 
uma boa cabeleira falsa nessas situaes...
J mencionei nesses ltimos dias que o Tim  um santo? No acredito que cheguei a ach-lo meio irritante. Ele est me ajudando  bea com a histria do Josh (eu 
explico depois -  complicado demais para ir por carta). Fiquei vendo o Tim trabalhar no torno de papai, outro dia. Ele fez um vaso para a me dele, vai dar de presente 
porque ela foi promovida no emprego. Legal, no ? Se voc no estivesse totalmente vidrada no Matt, eu at iria sugerir um encontro seu com o Tim, quando vier me 
visitar (quando, por falar nisso, voc vir?).
Mande um oi e lembranas minhas para todo mundo. Nunca tinha me dado conta de como  bom ter amigos, at vir para c, onde no conheo ningum. Graas a Deus que 
o Tim existe. Se no fosse por ele - e pelo Josh, claro -, eu passaria as sextas-feiras assistindo as reprises de algum programa idiota e comendo pipoca de microondas. 
Do jeito como vo as coisas, a vida caminha do suportvel para o bom e, com jeito, pode ser at que fique tima dentro de algumas semanas. No  uma loucura?
Um beijo,
Sara 

Na quarta-feira  tarde, estava indo para o estacionamento da Glendale cantando baixinho ''Baby, estou a fim de voc", uma msica do Bob Dylan que meu pai adora. 
E, claro, cada vez mais a fim, querendo passar o resto da eternidade com Josh.
O amor , de fato, algo de muitos esplendores, como diz uma outra msica muito antiga. Desde o sbado em que Josh e eu ficamos conversando na praia, tenho estado 
com urn humor to abenoado que meu pai me perguntou se eu ando misturando algum antidepressivo no caf. At minha me observou a minha euforia por telefone. Mas 
por que eu no haveria de me sentir eufrica? Na semana passada conseguimos nos encontrar duas vezes. Na primeira, fomos ao cinema e depois jantamos. Na segunda, 
esquecemos da hora do almoo e fomos at a praia.
Domingo passado, Josh e eu cochichamos ao telefone por mais de duas horas. Ontem  noite nos encontramos no "nosso" rochedo, e passamos quarenta e cinco minutos 
recheados de beijos. E, para completar, Tim ficou de bico calado, conforme o prometido. Chegou at a circular pelos corredores comigo umas duas vezes, em momentos 
nos quais sabia que Josh estaria por l.
Alm do mais, Josh no vai demorar para romper com a Raleigh e a no precisaremos mais nos esconder de ningum. Poderei berrar a letra de um sem-nmero de canes 
sentimentais para toda a Glendale escutar. Mal posso esperar por esse momento.
- Ei, Anna! - Cumprimentei uma garota de cabelos cacheados que sentava a meu lado na aula de Clculo sentindo que, finalmente, comeava a me integrar a comunidade 
escolar. Aos poucos, estava fazendo amigos. 
 
- Voc vai ao jogo sexta-feira? - Anna me perguntou.
- No perderia o jogo por nada.
Minha nova amiga no sabia quanto isso era verdade. Embora ainda no me divertisse com o espetculo de um bando de marmanjos correndo em volta do campo a se esmurrar, 
adorava ver Josh naquele uniforme branco.
Acenei para mais algumas pessoas, enquanto entrava no estacionamento lotado. Claro que seria muito mais fcil fazer amigos depois que Josh e eu comessemos a namorar 
oficialmente. No momento, a impresso  de que eu escondia algo.
- Baby, eu estou a fim de voc - eu ia cantando, toda feliz, a caminho do carro. Mas minha voz engasgou na garganta e meu estmago deu um n apertado.
O amor de minha vida achava-se a quinze metros de mim, e no estava sozinho. Josh e Raleigh haviam parado do lado do Cabriolet branco conversvel dela, agarrados 
como dois figurantes tentando se salvar no filme Titanic. Na hora me veio aquela sensao j to conhecida de estar prestes a botar para fora minha refeio mais 
recente.
Josh havia enroscado as mos nos cabelos escuros de Raleigh, que por sua vez enlaou a cintura de Josh e o puxava mais para perto. Eles no me pareciam um casal 
a beira do rompimento do sculo. Testemunhando aquele momento to terno, um observador neutro, sem dvida, teria chegado a concluso de que Josh e Raleigh estavam 
muitssimo apaixonados. Lgrimas quentes tanto de raiva quanto de tristeza me vieram aos olhos.
Corri at o carro e abri a porta com um puxo. Sem flego, com lgrimas escorrendo pelo rosto, encostei-me no banco de vinil preto desejando ardentemente que meus 
olhos estivessem enganados. Ergui-me uns poucos centmetros no assento e espiei pelo espelho retrovisor. Josh e Raleigh continuavam na solda labial. Argh. Urgh. 
Que nojo. Que horror.
Desabei no banco do carro. Esse era o fundo do poo para mim. L estava eu, largada em meu conversvel, sem ar, aos soluos. Maggie jamais acreditaria se eu lhe 
contasse a que ponto tinha chegado. Essa simplesmente no era eu. 
 
Fechando os olhos para fugir do brilho do sol da tarde, permiti que a realidade desabasse com estrondo sobre mim. As coisas entre Josh e eu no estavam maravilhosas. 
Nosso assim chamado relacionamento era uma grandessssima piada. Tim tinha toda a razo. Jamais deveria ter concordado em ser a outra garota na vida de Josh, mesmo 
que a situao fosse apenas temporria.
Era preciso encontrar um modo de fazer Josh perceber que ele tinha de escolher a mim, e somente a mim.

***

- J te disse, nesses ltimos dias, que voc est completamente maluca? - Maggie perguntou da outra ponta da linha quatro horas depois. - Puxa, voc j fez muita 
loucura no passado, mas acho que o sol da Flrida derreteu seus miolos.
Baixei a mo para coar as orelhas de Georgie enquanto pensava em uma resposta que contrariasse a essa afirmao de Maggie. Admito que meu plano encontrava-se no 
limiar do que a maioria das pessoas consideraria um comportamento decente, mas, neste caso, o fim justificava os meios.
- Mags,  que voc no entende o que significa ter o cara que voc ama to perto e ao mesmo tempo to longe.
Eu me enfiara no quarto, depois de testemunhar aquele horrendo incidente no estacionamento. Durante duas horas, busquei nos cantos mais obscuros de minha mente uma 
maneira plausvel de fazer Josh largar Raleigh de vez e comear a namorar comigo. Quando a inspirao finalmente baixou, liguei para Maggie para pedir conselhos 
e apoio. At o momento, ela no havia me oferecido nem uma coisa nem outra.
- Sara, esse seu plano parece coisa de vdeo amador. Primeiro, voce diz ao Josh que tem namorado, coisa que voc no tem. Depois, comea a sair com ele em segredo, 
fingindo o tempo todo que tambm est saindo com esse cara inexistente.
- O Tim no  inexistente - interrompi. - Ele  de carne e osso. - Georgie abanou o rabo ao ouvir o nome de Tim. Minha cachorra andava to apaixonada por Tim que 
eu j estava at enciumada. 
 
- O fato de ele ser de carne e osso s piora ainda mais as coisas - Maggie continuou. - E agora quer que o Tim monte um verdadeiro circo para que voc possa deixar 
o Josh doido.
- Nessa altura ele vai perceber que no pode viver sem mim, vai resolver largar da Raleigh e vai se tornar meu namorado - interrompi mais uma vez. Se no agitasse 
um pouco os monlogos de Maggie, ela seria capaz de falar por horas a fio. Na outra ponta da linha, escutei o seu suspiro.
- Posso lhe perguntar uma coisa?
- Claro. - Maggie era meio excntrica, s vezes, mas sempre se saia com algum comentrio pertinente. E, pelo tom de voz, tive o pressentimento de que no iria gostar 
da pergunta, fosse qual fosse.
- Onde  que fica o Tim, nisso tudo?
- O Tim? Como assim? Ele vai ficar aliviado, quando tudo isso terminar.
- Hum... - Maggie no me pareceu muito convencida.
- Pode acreditar em mim. Assim que Josh e eu formarmos urn casal, Tim vai pular de alegria de no ter mais que fazer o papel de namorado. No que ele tenha feito 
muita coisa at o momento.
- No tenho tanta certeza assim - Maggie falou, bem devagar. - E, mil perdes por estar apontando o bvio, mas me parece que esse Tim  bem mais ntegro que o Josh. 
Talvez ele no esteja disposto a exercer um papel ativo no seu melodrama.
- Mas no tem outro jeito - insisti.
Tinha revirado a questo de todos os lados e chegado a concluso de que s com um pouco mais de trapaa conseguiria viver uma vida livre, desprovida de culpa, tortura 
existencial e desiluses amorosas. Precisava fazer Josh ficar to enciumado com esse meu suposto namoro que, de repente, ele no mais suportaria a idia de me ver 
saindo com um outro cara. A, ento, terminaria com a Raleigh e toda essa farsa seria esquecida. 
Mas, antes, o mais importante: para conseguir fazer Josh morrer de cimes, eu pretendia dizer a ele que estava tudo acabado entre ns e, a partir da, passaria a 
ignor-lo. Pela minha experincia, os meninos no reagem l muito bem, quando levam um fora da garota que supostamente  sua f nmero um. 
Novo suspiro longo e dramtico da parte de Maggie. - Voc enfiou na cabea que tern de ser assim mesmo, no ?
- Justamente.  a nica forma de mostrar ao Josh que no sou uma boboca que se contenta em ficar no banco de reserva enquanto ele d uma de gostoso ao lado daquela 
candidata  Miss Pompom. - Georgie deitou a cabea em meu colo e me olhou com seus olhos cor de chocolate cheios de simpatia.
- Qual ser o prximo passo? - Maggie perguntou.
- Vou ter de convencer o Tim a enfatizar mais a coisa do namoro. Quer dizer, ele tem de dar a impresso de estar totalmente de quatro por mim.
- , acho que isso vai deixar o Josh com cimes - Maggie admitiu. - Se for bem feito.
- Mas como vou convencer o Tim? Ele j no me agenta mais, nem a mim nem s mentiras.
-  simples. Voc se atira aos ps dele e implora piedade. 
Era minha vez de suspirar. Em algum momento no futuro imediato eu teria de pedir a Tim um novo favor. E, se ele dissesse no, eu perderia Josh para sempre.

***

Na quinta-feira a tarde, eu investigava atentamente o material hiperjusto da roupa de mergulho que Tim havia me emprestado para a nossa primeira aula. Ele resolvera 
que eu j sabia o suficiente sobre a arte da explorao subaqutica e podia chegar perto do mar, embora ainda no estivesse pronto para me deixar mergulhar de verdade. 
O que, para mim, era perfeito. Mesmo emocionada de experimentar o equipamento com gua pela cintura, ainda no me achava psicologicamente preparada para encarar 
um passeio pelo fundo do mar.
- Sabe de uma coisa, talvez voc ainda tenha futuro no mergulho. - Tim largou o cilindro de ar na areia, bem do meu lado. 
- Voc acha? - sorri, satisfeita. Obter qualquer coisa que beire um elogio da boca de Tim no  faanha que se despreze. - Verdade?
Ele sorriu de volta.
- Acho. Desde que voc pare de ficar sonhando com tubares no chuveiro. O medo, debaixo d'gua, pode ser fatal.
- Uns poucos mseros sonhos no vo me impedir de conquistar o oceano, senhor professor emrito. E no vale usar informao privilegiada contra mim.
Tim tirou a parte de cima da roupa de mergulho, revelando os msculos rijos dos braos e torso.
- Tem razo. No direi mais nada.
- Falando em no dizer mais nada... - Estava a procura de um ponto de partida para pedir meu ltimo favor a ele e, pelo visto, esta era uma rampa de decolagem to 
boa quanto qualquer outra.
Os olhos dele se enevoaram na hora.
- Fantstico. - E, depois de uma pausa enorme... - O que foi agora?
- Esse negcio com o Josh no est certo - falei bem devagarinho, sentando-me a seu lado sobre a areia branca e macia da praia.
Tim olhou para o cu.
- Aleluia! Por fim a moa percebeu ter tornado a trilha errada!
Limpei a garganta, nervosa.
- Motivo pelo qual eu precisaria, hum... facilitar o processo do rompimento dele com a namorada.
- Facilitar o processo? - Tim repetiu. - Isso no me soa hem, seja l o que for.
- O Josh tem cimes de ns - expliquei. - Mas, at agora, ainda no precisou enfrentar o fato de que voc e eu formamos um casal. Quer dizer, claro que ele sabe, 
mas ao mesmo tempo no sabe.
- Em primeiro lugar, voc e eu no formamos um casal de verdade. Em segundo lugar, no estou gostando do jeito como voc est me olhando. Sinto-me um camundongo 
a caminho da boca de uma jibia.
- Pelo menos me oua - implorei. - Por favor.
- Por acaso tenho escolha? - Tim arrancou os ps-de-pato e enterrou os ps na areia.
- Preciso que a gente aja mais como um casal de namorados para deixar o Josh morto de cimes. Voc sabe como , ficar de conversinha, andar de mos dadas, bl, bl, 
bl.
Tim ergueu uma sobrancelha. 
- Essa parte do bl, bl, bl me pareceu interessante. A gente pode se beijar nos corredores da escola?
Ignorei o rubor que seguramente tomava conta de meu rosto. - Nessa eu no caio, Kaplan. Sei quando voc est s me amolando.
Na era o momento de dizer que um beijo poderia, em algum momento, tornar-se elemento necessrio na encenao que teramos de fazer. Jogaria essa coisa do beijo 
mais tarde em cima dele. Os olhos de Tim perderam o brilho malandro.
- Falando srio, j no fiz o suficiente para ajudar voc? Quer dizer, nem sequer gosto do Josh. E no quero que voc o namore, ele no merece voc.
J tinha ouvido Tim dizer isso vrias vezes, mas no com tamanha intensidade na voz. O pnico tomou conta de mim. Ser possvel que ele vai se recusar a cooperar? 
No. Ele simplesmente precisava concordar. De repente, a roupa de mergulho parecia estar me estrangulando. Havia muita coisa em jogo, ali, e eu comeava a ficar 
sem flego.
- Tenho de namorar o Josh - falei, entre uma arfada e outra, em busca de ar. - Essa  a coisa mais importante do mundo para mim.
- Por qu? Por que  to importante assim? Voc passou um ms e pouco com ele. A Raleigh conhece o cara h dez anos.
Obriguei-me a respirar bem fundo, para acalmar meu nervosismo. Inspirar. Expirar. Inspirar.
- Eu j disse antes. Eu amo o Josh.
Tim abanou a cabeca.
- No vou cair nessa. A tem mais coisa - interrompeu o que dizia para olhar o mar. - Sua obsesso pelo cara ultrapassou seja l o que for que voc acha ter vivido 
com ele durante aquela paixonite de vero. Voc est mais interessada em ganhar que em qualquer outra coisa.
Pisquei duro, espantada com Tim. De onde ser que vinha aquela capacidade de pegar meu ponto mais vulnervel e cair matando em cima? Ns nem sequer nos conhecamos 
h tanto tempo assim. Mas ele tinha razo. Ate Maggie havia tocado nesse assunto, durante nossa conversa na noite anterior. A intensidade de minha paixo fugiu ao 
controle. Porm, no abriria mo de meu sonho. No ainda, e talvez nunca. 
- No gosto de perder, Tim - falei bem baixinho. - Sempre acreditei que, quando se quer muito uma coisa, a gente consegue. E eu quero o Josh.
Ele virou-se para me olhar.
- Voce  maluca, Sara, sabia? - Os olhos castanhos estavam mais doces. Dava para ver que comeava a mudar de ideia, enquanto corria os dedos para l e para c, na 
areia.
- Sabia - falei, incapaz de evitar o sorriso que me invadiu o rosto. - E ento, voc est do meu lado?
- Estou. Mas, se essa palhaada no terminar logo, mas logo mesmo, acabou. Ponto final.
- Fechado.
Estendi a mo para que Tim a apertasse. Quando seus dedos prenderam os meus, puxei-o mais para perto e pus os bracos em volta dos ombros dele.
Tim me deu um abrao, depois afastou-se. Estavamos cara a cara.
- Voc me faz um favor?
- O que voc pedir. Como poderia recusar alguma coisa a meu Salvador?
- No se perca nessa histria toda. No se esqueca de que, no fundo, voc  uma pessoa boa, gentil e generosa.
- Como pode achar que eu sou tudo isso, depois das coisas que voc me viu fazer? - perguntei docemente.
Tim me encarou.
-  esse meu olho de artista. Enxergo para alm da superfcie e vejo o que h dentro da alma.
Meu pulso acelerou e tive de desviar a vista de Tim e fixei-me no tecido da roupa de mergulho. Tomara que minha alma consiga sobreviver a essa ltima etapa de logros 
e manipulaes. Definitivamente, vinha forando os limites daquilo que uma pessoa pode fazer sem prejudicar o carma.
S mais alguns dias, depois eu volto a ser a garota honesta de antes. Chegara a hora do vai ou racha. Eu conseguiria, ou levaria um baita de um tombo. De um jeito 
ou de outro, o pesadelo logo mais acabaria. 









Nove

Achei que meu corao fosse saltar do peito assim que parei diante da casa dos Nelsons na sexta-feira  tarde. Sabia que Josh estava em casa: todos os jogadores 
tinham recebido ordens do treinador Wilson para descansar no mnimo uma hora antes da partida. Em poucos segundos, executaria a primeira fase de meu novo e aprimorado 
piano para conseguir o homem dos meus sonhos. S torcia para ter coragem suficiente de lev-lo adiante.
A campainha soou mais alto que o normal, ou natural. Era uma daquelas campainhas que tocam msica e, no caso, a msica era "When the Saints Go Marching In". A vizinhana 
toda seguramente tomou conhecimento de minha chegada. Mas, infelizmente, no foi Josh quem atendeu a porta.
Uma senhora alta e loira me olhou com certa desconfiana, de alto a baixo.
- Em que posso ajud-la? - ela perguntou.
Durante alguns instantes, no consegui abrir a boca. Era a primeira vez que me via cara a cara com a me de Josh e aquela no era bem a apresentao que eu havia 
fantasiado. Oi! Eu sou a garota que seu filho tem beijado s escondidas da namorada nestas ltimas semanas. Posso entrar? Sei, sei. Certo.
- Hum... o Josh est? - Fantstico. O jeito ideal de criar uma boa impresso inicial, Connelly.
A loira alta franziu o cenho.
- Ser que trazia as palavras eu sou a outra tatuadas na testa?
- Ele est descansando no momento, meu bem. 
Ento Josh apareceu por trs dela.
- Tudo bem, me. Ns s vamos conversar um minutinho. 
A sra. Nelson pelo visto no gostou muito, mas retirou-se sem dizer mais nada. Soltei um suspiro de alvio. O primeiro empecilho fora superado. Mas ainda havia um 
segundo e bem maior obstculo a ser ultrapassado.
- Oi, Josh.
- O que voc veio fazer aqui? - Josh no parecia muito satisfeito em me ver. No houve nenhum beijo ardente, nenhum abrao caloroso, nem mesmo um meio sorriso. 
 
Joguei meus longos cabelos loiros para o lado e, antes de mais nada, lembrei a mim mesma de um fato importante: eu estava absolutamente fabulosa no vestido azul-claro 
escolhido para ocasio to momentosa.
- Tambm estou contente de te ver.
- Desculpe...  que... acha mesmo uma boa idia vir falar comigo aqui em casa? A Raleigh est vindo para c, antes de eu sair para o jogo...
- Isso no vai tomar mais que uns segundos de seu tempo - interrompi.
Se ele achava que eu sairia com o rabo entre as pernas, feito um cachorrinho rejeitado, enganava-se redondamente. No havia lei nenhuma que me impedisse de estar 
na porta da frente da casa de Josh!
- Certo, hum... eu convidaria voc para entrar, mas meus pais...
Fiz um gesto com a mo, descartando o convite.
- No h necessidade de eu honrar o seu sof com minha presena. S vim lhe dizer uma coisa.
- O que houve? -Josh perguntou, com um tom mais suave, mais parecido com o do cara por quem eu tinha me apaixonado no acampamento Quisiana.
- Estou pondo um ponto final nessa palhaada - falei com frieza, tomando emprestado a expresso usada por Tim. - Quero um relacionamento de verdade. Quero conhecer 
seus pais, ir aos bailes da escola com voc, quero ir ao cinema com voc na sexta-feira  noite.
Pare de ficar pensando nos olhos azuis fantsticos que ele tem, ordenei a mim mesma. Lembre-se, isto tudo faz parte do grande plano.
- Sara, ns j falamos tanto sobre isso.
Desviei a vista dos delicados pelos dourados que cobriam os braos bronzeados e continuei.
-No quero beijar o namorado de uma outra garota em um carro estacionado em uma estrada deserta, onde ningum pode nos ver.
Fui ficando cada vez mais entusiasmada. Toda a frustrao das ltimas semanas comeou a borbulhar e subir a superfcie. A situao passava de aflitiva a imperativa 
e no demoraria a chegar ao estgio do absurdamente real. Eu quase, e aqui enfatizo o quase, acreditei que estava dizendo a Josh que as coisas entre ns tinham acabado. 
 
- Voc sabe que eu no posso terminar com a Raleigh, pelo menos no por enquanto, e que voc no pode romper com o Tim.
- Josh deu alguns passos para fora e fechou a porta. Infelizmente, esse pequeno movimento levou a uma diminuio considervel da distncia entre ns. Minha recm-encontrada 
ira ameaou derreter.
- Josh, eu estou falando srio. ela ou eu. Voc escolhe. - Minha voz soou artificialmente ardida, quando engoli o balde de lgrimas que ameaava jorrar de meus 
olhos.
- Voc no pode me pedir para escolher. No  justo. - Os belos olhos azuis brilhavam, pedindo para eu esquecer do assunto.
- Tudo  justo na guerra e no amor - disse. - No posso continuar assim.
Josh estendeu a mo para mim, mas eu recuei um passo. Qualquer forma de contato fsico anularia por completo meu plano.
- Estou indo, agora. - Minna voz saiu embargada de lgrimas. - A gente se v na escola, na segunda. Talvez.
- Voc no pode simplesmente aparecer aqui em casa e me atirar isso na cara - Josh insistiu. - Vamos nos encontrar amanh e discutir isso melhor.
Eu havia me preparado para esse convite. Sabia que qualquer encontro particular com ele resultaria em anulao de meu ultra-super-hiper-bem pensado esquema. Balancei 
a cabeca.
- No temos mais nada para discutir, at que voc e a Raleigh tenham terminado oficialmente.
Girei nos calcanhares das sandlias de salto plataforma e fui mais que depressa na direo do meu Oldsmobile. Era essencial que me afastasse o mximo possvel da 
casa de Josh. Meu corao parecia ter sido atingido por uma marreta.
- Sara, eu amo voc - ainda tive tempo de ouvir Josh dizer bem baixinho.
Eu me achava to perto de voltar e correr para os braos dele, que as sandlias na verdade ameaaram tomar o caminho da porta. Ainda bem que o crebro deteve o corpo 
e continuei andando na direo do carro. No iria desistir. No podia desistir. 
 
Josh continuava parado na frente da casa quando dei a partida no meu conversvel e afastei-me da calada. Tinha dito tudo o que prometera a mim mesma. A partir daquele 
momento, Josh e eu no tnhamos mais nada. Pelo menos era esse o plano. E, a partir de segunda-feira, passaramos a percorrer a acidentada trilha rumo a reconciliao. 
Eu apostava nisso.

* * *

Na segunda-feira, por volta do meio-dia, as divindades do tempo sopraram a meu favor. Os dias geralmente ensolarados da Flrida levavam quase todos os alunos da 
Glendale a se esparramar uos jardins da escola na hora do almoco. Mas chovia, e a maioria se amontoou na cantina. Teria precisamente a platia que havia pretendido. 
Tim e eu estavamos lado a lado, na fila do almoo, e eu cochichava instrues no ouvido dele, enquanto passvamos pelas opes de entradas, pratos principais e sobremesas.
- No sei se vou conseguir fazer isso. - Tim tinha a frente uma seleo desinteressante de sobremesas e escolheu uma fatia meio magra de bolo de chocolate alemo. 
- Nao sou um ator muito bom.
- Faa como eu, mais nada - sussurrei para ele. - Nao tem nada de muito complicado.
Peguei uma tigelinha de pudim de baunilha e desejei ardentemente me sentir to confiante quanto parecia. Para falar a verdade, at ento eu nunca tinha buscado a 
ateno alheia.
Em geral, todos os olhares acabavam indo parar em mim, independentemente do que estivesse fazendo. Mas me achava prestes a encenar uma farsa, que teria de parecer 
tao real que nosso suposto romance, meu e de Tim, iria imediatamente parar na boca da cantina inteira. Caminhamos at o caixa em silncio e, ento, cutuquei Tim 
com o cotovelo.
- Preparado?
Ele entregou uma nota de cinco dlares  moa do caixa.
- No.
Deixei quatro notas de um com ela e no me preocupei com o troco.
- timo. Ento, vamos.
Larguei minha bandeja na mo de Tim. Garoto carregando bandeja da garota era quase sinal de noivado na Glendale. 
 
- Sara... - Tim gemeu em um tom de splica, bem quando eu me posicionava para que Josh, sentado a uma mesa com metade do time de futebol, pudesse ouvir cada palavra 
dita.
- Tim, no diga uma coisa dessas! - eu guinchei, apertando o brao dele. Em seguida, soltei uma risadinha digna de Cameron Diaz em O casamento do meu melhor amigo. 
- Voc sabe que eu no sou o tipo de garota que faz isso!
O rosto de Tim j ultrapassava o tom de escarlate, mas ele deu um jeito de me lanar um sorrisinho endiabrado.
- Pelo menos voc vem assistir a um filme comigo, quando meus pais estiverem fora, neste fim de semana? - perguntou. - Prometo me comportar.
Suspirei e passei a mo pela cabeleira escura.
- Pode ser. Mas s se for para ver Feitos um para o outro.  sabido que qualquer filme com Meg Ryan faz a delcia das meninas. Se um carinha estiver disposto a se 
submeter a isso, ento no resta a menor dvida de que est louco por voc.
- Por voc, senhorita Connelly, alugo at Insone em Seattle. - Tim me fitava com um ar to convincente de adorao, que eu estava muito perto de esquecer como ele 
tinha sido arrastado para a situao debaixo de srios protestos.
Dei uma olhadela muito de leve para a mesa de Josh. Minha vtima nos observava, quanto a isso no havia a menor dvida. E seus olhos azuis destilavam tanta raiva 
que por alguns momentos pensei que ele fosse saltar da cadeira e enfiar as duas bandejas de comida que Tim carregava na fua do meu assim chamado namorado. Mas Josh 
se limitou a me olhar de um jeito que meu corao dava cambalhotas. Adoro situaes intensas, dramticas e apaixonadas. E aquele momento reuniu essas trs qualidades.
Tim e eu fomos andando at uma mesa vazia, no outro extremo da cantina, cochichando e rindo. Quando finalmente nos sentamos, reparei com uma alta dose de satisfao 
que o olhar de Josh continuava cravado em ns. Ele havia nos seguido por todo o salo. 
 
- Excelente trabalho! - Depois de elogi-lo, debrucei-me sobre a mesa e fingi sussurrar douras em seu ouvido, dando prosseguimento ao ato. - Voc nasceu com o dom.
Pegando a deixa, ele tomou minha mo e sorriu.
- Sei ocultar minhas emoes verdadeiras to bem quanto qualquer pessoa. Quando  preciso.
Meneei a cabeca. Tim era cheio de surpresas. Se a Academia desse um prmio para o melhor namorado, ele ganharia o Oscar do ano. Apesar de estar sem fome, ergui meu 
queijo quente e dei uma enorme mordida. O sanduche no estava de todo mau, mas a vitria tinha um sabor ainda melhor.

***

Uma hora e dezesseis minutos depois, parei na porta da classe onde teria minha aula de ingls. Estvamos para terminar a leitura de Mrs. Dalloway, e eu continuava 
me sentindo "estranhamente cnscia" de mais ou menos tudo a meu respeito. Mas, naquela tarde, deliciava-me com os reflexos fulgurantes da auto-conscincia exacerbada.
Vrias garotas j tinham vindo me dizer que Tim e eu ramos um dos casais mais bacanas da escola e eu havia reparado que mais de um menino olhava para Tim com inveja, 
quando samos da cantina. Porm, um dos amigos dele, chegou at a gritar algo do gnero " isso a, cara!". Por enquanto, tudo perfeito.
De longe, vi Josh virando no corredor. Sabia que ele tinha aula de Histria norte-americana a quatro salas de distncia da minha. Sorri para ele.
- O que significou aquilo tudo na cantina? - ele quis saber, assim que se aproximou.
Agitei as pestanas e encostei-me em um armrio atras de mim. Sabiamente, estava usando uma saia curta com aquele tipo de sandlia cheia de tiras amarradas perna 
acima que deixam qualquer menino sem fala.
- No entendi. - Mantive a voz fria, mas cordial.
- Voc e Tim Kaplan, vocs praticamente se agarraram no meio da cantina. Foi nojento. - O rosto de Josh estava da cor de um tomate maduro e reparei em algumas veias 
saltadas no pescoo.
Dei de ombros e olhei o relgio, como se houvesse mil outros lugares onde eu preferisse estar. 
 
- Estava batendo um papo amigvel com meu namorado. Algo muito comum, uma atividade humana normal.
Josh arriou em cima de um dos armrios e deixou cair o livro de Histria no cho.
- Corta essa. Estou falando srio.
- Eu tambm. - Olhei o relgio de novo. - Voc queria me dizer alguma coisa?
- Queria dizer um monte de coisas - Josh esbravejou. - Pensei que voc me amasse e agora age com aquele cara como se ele fosse o Leonardo DiCaprio ou algo parecido.
- Como voc j deve estar sabendo, Tim e eu somos namorados. - Bati o p no cho de lajota e fiz aquele ar de tdio que eu imaginava ser o de Clarissa Dalloway ao 
falar com os criados em sua casa londrina.
- Probo voc de ir a casa dele este fim de semana! -Josh praticamente berrou. E nem olhou em volta para ver se Raleigh estava por perto. Era a primeira vez que 
isso acontecia; em geral, ele s falava comigo depois de se certificar de que estvamos completamente sozinhos. - Ele vai se aproveitar de voc, estou sentindo isso.
Girei os olhos.
- Em primeiro lugar: j estou bem crescidinha e sei tomar conta de mim. Em segundo lugar: Tim  um cara maravilhoso que jamais faria o que voc est sugerindo. - 
Olhei uma terceira vez para o relgio, s para me certificar de que Josh havia entendido direitinho aquela histria de ter coisa melhor a fazer com meu tempo. - 
E, em terceiro lugar, no  da sua conta.
A boca de Josh abriu e fechou, mas dela no saiu uma palavra sequer. Puxa, como ele era sexy quando ficava bravo, enciumado e sem fala. Minha vontade era jogar o 
Mrs. Dalloway no cho e me atirar em seus braos. Mas acabei lhe dando meu melhor sorriso de Mona Lisa. - Agora, se me d licena, tenho aula.
Virei-me e fui em direo a porta da classe, ciente de que os olhos de Josh queimavam um buraco nas costas de minha camiseta vermelha justinha. Olha s isso, Josh. 
Ginguei de leve os qua-dris e joguei o cabelo para o lado.  isso. 
 
- A histria ainda no terminou, Sara -Josh teve tempo de dizer nas minhas costas. - O que h entre ns no est nem de longe acabado.
Na porta da classe, parei por alguns instantes.
- Imagine que caiba a voc decidir, no  mesmo?
- Sara... - Ele praticamente gemeu meu nome e um arrepio de satisfao me atravessou inteira, do topo da cabea at a ponta dos dedos dos ps.
- Acho melhor voc ir procurar sua namorada - falei com frieza. - Se voc ficar mais de dez minutos fora das vistas dela,  capaz de ela sair por a dizendo que 
voc desapareceu em ao.
- E, com isso, entrei na sala de aula e fui para minha carteira de hbito.
Em uma escala de um a dez, esse dia fora nota nove. E, assim que Josh recuperasse o bom senso e terminasse com Raleigh, eu tinha a impresso de que iria viver mais 
dias de nota dez que Michelle Kwan nas provas de patinao.  isso ai! 

Ei, S.,

No  que deu certo? Estarei na Flrida daqui a uma semana, exatamente. D para acreditar? Um viva s conferncias de professores e aos fins de semana prolongados.
De qualquer modo, minha me disse que estou gastando tanto em telefonemas para fora do estado que seria melhor ela me comprar uma passagem de avio. Acho que tambm 
sente sua falta e quer um relatrio de como voc est se virando por a.
Matt vai me levar para jantar fora um dia antes de eu embarcar, j at me convidou. Estou to assustada, acho que vou ser beijada. , eu sei que j fui beijada vrias 
vezes por vrios carinhas legais. Mas Matt  diferente. No sei... digamos apenas que nem sequer pensei na possibilidade de ir ver os gatos nas praias da Flrida. 
Ser que estou apaixonada?  assim que voc se sente quando est com o Josh, toda quente, arrepiada e em paz?

Beijinho
Mags 











Dez

- Ainda no entendi o que viemos fazer aqui. - Era tera-feira a tarde, e eu me esforava para manter o mesmo ritmo de Tim pela areia, numa praia imensa a cerca 
de um quilmetro e meio da escola.
- Se voc conseguir agentar mais ou menos uns trinta segundos, nossa misso se tornar muito clara - ele me respondeu.
- Tudo bem. - Tirei os sapatos, que j estavam cheios de areia, e continuei a andar.
Era a primeira vez que eu o via naquela agitao toda. Tim parecia meio zonzo de emoo por causa de algo que eu no sabia o que era. Depois da aula, tinha ido me 
encontrar no carro e insistido para que eu lhe desse uma carona. Tentei interrog-lo a respeito, mas ele simplesmente apontou para uma mochila bem recheada que levava 
e me mandou dirigir.
De repente, parou e largou a mochila na areia.
- Olhe l - ele me disse, apontando para o norte.
Dei uma checada geral na praia. A uns cem metros de ns, vinte sujeitos corriam para cima e para baixo.
- O que est havendo? 
Tim sorriu para mim.
- Calhei de ouvir o Chuck O'Sullivan dizer que o treinador iria trazer o time de futebol at aqui, para uma tarde toda de treinos de velocidade.
- A-ha! - Isso era quase um milagre. De livre e espontnea vontade, Tim se incumbira de avanar a operao-deixar-Josh doido. Jamais teria imaginado que meu amigo 
possuia dentro de si,  espera de uma oportunidade, tamanha capacidade para tomar iniciativas. Fiquei impressionada.
- Quer dizer que vamos nos sentar por aqui, a espera de sermos notados?
Tim balancou a cabea.
- Nada disso. - Ajoelhando-se na areia, abriu a mochila, - Tem uma coisa que eu andava querendo testar h muito tempo, e hoje vai ser o dia.
Fiquei bastante intrigada. Tim no era do tipo misterioso; pelo menos eu achava que no, ate aquele momento. Obviamente, havia um bocado de coisas que eu ignorava 
a respeito dele.
- Estou morrendo de curiosidade, Kaplan. Chega de suspense. 
J tinha visto Josh ao longe. Estava de bermudo preto e uma camiseta amarela desbotada. Minha esperana era que, depois de umas dez corridas, fosse obrigado a tirar 
a camisa. Apesar do esfriamento das relaes entre ns, minha boca enchia de gua s de imaginar os msculos torneados do peito de Josh.
Tim tirou da mochila um enorme pedaco de argila, com um floreio.
- No sou apenas o assistente de seu pai, sabia? Tambm gosto de me imaginar como artista em formao.
- Voc  um grande artista e sabe disso - disse a ele, afundando na areia, mas sempre mantendo um olho cuidadosamente pregado no time de futebol.
Fiquei extremamente surpresa j na primeira vez em que meu pai me mostrou uma coleo de objetos feitos por Tim no torno. Cresci vendo o trabalho paterno e conheo 
um bocado sobre cermica. No resta a menor dvida de que os vasos e potes que Tim produz mostram um talento o qual excede e muito tanto sua idade quanto sua experincia.
- Em geral, trabaiho meus objetos no torno - disse, colocando a argila sobre um pano branco grande. - Mas esta tarde eu vou esculpir.
- O qu? - perguntei, ainda vidrada no futebol. Quem me dera poder ir levar uma gua para Josh. Ele me parecia exausto.
- Voc.
Meu olhar deslocou-se dos futebolistas para Tim, que amassava a argila com seus longos dedos esguios. - Eu?
- Exato. - Erguendo os olhos, Tim sorriu. - Voc ser minha musa.
Fiquei meio chocada.
- No sei, no. Nunca me vi no papel de modelo de artista. - Claro que eu tinha uma alta dose de auto-estima, e estava acostumada a ser admirada por carinhas cobiosos. 
Mas nunca ningum havia me estudado. Ningum jamais havia criado uma obra de arte com base em minha aparncia. A simples idia j era meio intimidante.
Tim comecou a modelar a argila.
- Pense s no cimes do Josh quando ele nos vir aqui e observar que eu no tiro os olhos de voc enquanto modelo sua delicada estrutura ssea com os dedos.
- Hum... - No havia pensado no projeto de Tim sob esse ngulo. A idia era excelente. - Entendo. 
- timo. Vamos comear, ento. - Tim examinou meu rosto um bom tempo. - Olhe para o mar e incline o queixo urn pouquinho.
Segui as instrues de Tim, embora decepcionada, porque essa minha pose me obrigava a desviar os olhos de Josh. - O Josh est vendo a gente? - perguntei.
- Ainda no. Mas ver. - Tim silenciou.
Queria continuar falando, mas era bvio que ele estava ocupado com seu trabalho. De minha parte, eu olhava o mar e refletia sobre a sbita e espantosa mudana de 
atitude de meu novo amigo. Sua atuao durante o almoo, no dia anterior, havia sido soberba. E agora isto. Para um cara que tinha dito no achar Josh digno de minhas 
atenes, ele estava fazendo mais que o esperado para me ajudar a recuperar o meu grande amor vivido no vero. Por qu?
Com o passar do tempo, fui aos poucos me esquecendo de Josh e do time de futebol americano. Ouvia ecos vagos dos grunhidos e gemidos da equipe, treinando os deslocamentos, 
mas estava mais sintonizada nos suspiros baixinhos que Tim soltava de vez em quando, enquanto trabalhava na escultura. Posar para ele me pareceu espantosamente natural 
- quase como meditar.
- Ele est olhando - Tim avisou de repente. - E parece seriamente contrariado.
-  mesmo? - Morri de vontade de desfazer a pose, mas me obriguei a permanecer imvel no lugar.
- . - Tim calou-se por alguns segundos. - O treinador est dando bronca nele.
- timo! - Senti uma onda de gratido por Tim. Se ele no tivesse bolado esse plano brilhante, eu teria desperdiado a tarde inteira sem dar um nico passo rumo 
ao meu objetivo final.
O que Josh estaria pensando nesse momento? Ser que sentia tanta dor de me ver ao lado de Tim quanto eu senti naquele dia, quando o peguei beijando Raleigh? Para 
qualquer pessoa que passasse por ali, Tim e eu com certeza pareceriamos um casal comum. Ningum iria imaginar que nosso romance era uma farsa total. At eu, s vezes, 
me esquecia disso.
- O Josh simplesmente largou o treino - Tim informou. - E me deu uma olhada que voc nem iria acreditar. 
No havia como eu me furtar desse prazer. Abandonei toda e qualquer pretenso de estar absorvida na funo de modelo e virei-me para v-lo. Josh corria em direo 
ao estacionamento. O treinador ainda gritou alguma coisa para ele, mas no consegui decifrar o que foi, o que talvez no tenha sido de todo mal. Sentimentos de culpa 
comearam a se acumular em um ritmo veloz dentro de mim. Entretanto, era isso que eu queria, no era?
Josh virou-se para dar uma ltima olhada em Tim e em mim, o que me impeliu a virar a cabea para o lado contrrio. Se ele suspeitasse que eu aproveitava toda e qualquer 
oportunidade para olhar para ele, poderia comear a ficar meio desconfiado do meu suposto romance.
- Misso cumprida - comentei.
As mos de Tim alisavam a argila sob os dedos.
- Feliz, agora?-Tim moldava aquilo que viria a ser meu nariz. Meneei a cabea, distrada.
- Bastante. - Chocante era eu estar mais fascinada com a escultura de Tim do que com o espetculo da sada intempestiva de Josh do treino.
- Agora que o Josh foi embora, voc vai insistir para a gente ir embora? - Tim perguntou. - E vire a cabea para o mar, enquanto medita sobre a questo.
Fiz conforme ele mandou, depois sacudi a cabeca de leve. -Jamais me passaria pela cabea interromper o trabalho de um gnio - disse a ele, mal mexendo os lbios.
Tim riu baixinho.
- Voc  uma garota legal, Sara. Sabia disso?
- Que nada. S quero ver meu rosto em exposio no Museu Metropolitano de Arte algum dia, mais nada.
Tim no respondeu. Na verdade, acho que nem me ouviu. Achava-se totalmente absorto no trabalho. Suspirei sem fazer barulho. Papai era igualzinho quando trabalhava; 
alis, aquele jeito dele de se perder na arte durante dias a fio tinha sido um dos motivos que levaram minha me a deix-lo. 
Tim, no entanto, no era bem assim. Ele no se fechava totalmente para o mundo, quando esculpia. Ele se preocupava em vigiar os movimentos de Josh. E no havia feito 
nenhum comentrio sarcstico, quando espichei o pescoo para v-lo largar o treino e ir embora. Devia um bocado ao meu amigo.
No quase silncio que se seguiu, pude sentir o olhar atento de Tim em meu rosto. Mexi o queixo uma frao de centmetro para poder ver seus olhos. Era um olhar to 
impetuoso, ningum jamais havia me olhado daquele jeito. Senti-me totalmente exposta. E linda.
- Tim, por que voc est agindo assim? - consegui por fim perguntar. - Por que voc est me ajudando? - Como ele no me respondeu, pigarreei bem alto. - Tim? Voc 
escutou o que eu disse?
As mos dele pararam de se movimentar sobre a pequena escultura.
- Por dois motivos. Primeiro, porque percebi que quanto mais rpido seu plano funcionar, mais rpido eu caio fora da jogada. - Aps alguns momentos de silncio, 
vi que ele estava dando forma aos lbios, meus lbios.
- E qual o segundo motivo? - Por alguma razo maluca, meu corao ps-se a bater um pouco mais rpido, enquanto eu aguardava uma resposta.
Tim deu de ombros.
- Voc tem o rosto de um anjo, Sara - sonho de todo artista. Foi ridculo, mas confesso que nesse momento, ouvindo o elogio dele, meu corao disparou de verdade. 
A voz que ouvi no tinha a entonao zombeteira de hbito. E o rubor que me subiu as faces vinha de algum lugar l no fundo de mim. Haveria algo mais entre ns, 
alm de amizade?
- Sara? - Tim sussurrou. 
Engoli em seco.
- H, o qu?
Ele me olhou por um bom tempo.
- Hum... incline a cabea um pouco mais para a esquerda.
- Certo. Claro. - Respirei bem fundo e inclinei a cabea. Calma, calma, falei com meus botes, voc e Tim so apenas bons amigos. Eu simplesmente tinha me deixado 
levar ao sabor daquele jogo. Sim, tinha certeza de que no havia mais nada, ali.

*** 
Na quarta-feira  noite eu conversava com Maggie ao telefone, cruzando de l para c o assoalho de meu quarto, sem parar um instante.
- No entendo por que voc no se animou com as notcias! - falei. - O Tim e eu conseguimos avanar com o plano. Nunca imaginei que aquele pateta... t bom, t certo, 
ele no  um pateta, ele  um gato, mas como eu ia dizendo, nunca imaginei que ele pudesse ser to deliciosamente inescrupuloso.
- Sara, voc prestou ateno no que disse?
Suspendi o monlogo, mas continuei andando de l para c. Estava to empolgada que tive certa dificuldade em perceber que aquilo se tratava, teoricamente, de uma 
conversa entre duas pessoas.
- O qu?
- Faz bem uma meia hora que voc no para de falar que o Tim  um cara incrvel, mas ainda no me disse uma nica coisa boa sobre o Josh.
Parei de perambular pelo quarto e despenquei na cadeira de balano.
- E da? O Tim  um cara incrivel, mas eu tenho muita coisa boa para dizer sobre o Josh. - Mostrei a lngua para Georgie, que me encarava com ar de interrogao. 
Gozado eu nunca ter reparado, at ento, como eram parecidos, os olhos de Georgie e os de Tim - to meigos.
- Diga-me alguma coisa de bom sobre o Josh - Maggie exigiu. - Mas no quero outro discurso sobre cabelos sedosos ou bceps bem definidos. - Seria essa a mesma Maggie, 
minha melhor amiga desde pequena? Uma Maggie desinteressada por detalhes fsicos de carinhas bonitos? Impossvel!
- O Josh  engraado. Ele  inteligente. E leal. 
Maggie soltou urn grunhido zombeteiro.
- Leal? No acho que enganar a namorada  uma atitude leal. 
No ficou muito claro se Maggie achava que Josh enganava a mim ou a Raleigh. E no procurei saber.
- E tambm  um timo jogador de futebol. - No havia como ela me contradizer nesse quesito. E habilidades atlticas contavam muitos pontos para um garoto: disciplina, 
graa de movimentos, flego bom. 
- Ainda acho que  pelo Tim que voc deveria estar apaixonada-Maggie insistiu. Misericordiosamente, deixou passar batido minhas investidas anteriores contra a brutalidade 
do futebol americano. - Pelo que ouvi at o momento, o Tim  dez vezes melhor que esse tal de Josh.
Como minha amiga se enganava. Josh era minha alma gmea.
- Voc no entende, Mags. Voce nunca passou pela experincia de estar nos braos de Josh.
E l veio outro grunhido de troca viajando pelos mil e quinhentos quilmetros que nos separavam.
- Ainda bem.
- Ser que podemos voltar ao assunto? - Retomei a caminhada. Estava com a adrenalina a mil.
- Que assunto? Mais descries sdicas da coitada da Raleigh? - Maggie perguntou. Sem dvida, minha melhor amiga sabia como retirar toda a graa de uma boa histria.
- No  sadismo. Estou apenas ressaltando que eu vi os dois discutindo no corredor, outro dia. Ela reclamou que ele anda meio enfezado, ultimamente.
Maggie soltou um suspiro.
- Acho que a Flrida no est fazendo muita coisa pelo seu carma, Sara.
Fuzilei Georgie com os olhos. O olhar da cachorra parecia me acusar de alguma coisa.
- Escute, voc vai ver o Josh em carne e osso, quando vier no fim de semana que vem. Se achar que ele no vale todo esse esforo, prometo que deixo voc dizer tudo 
o que quiser sobre ele.
- No prometa aquilo que no pode cumprir, Connelly. - Do outro lado da linha, deu para ouvir a me dela gritando para que desligasse o telefone e fosse terminar 
os deveres de ingls. Certas coisas no mudam nunca.
- No se preocupe com minhas promessas - garanti a ela. - Sei que voc vai ador-lo, tanto quanto eu.
Tinha certeza absoluta de que at domingo, no mximo, a operao "deixar-Josh-doido" estaria terminada. J havia feito planos serissimos para sexta-feira  noite, 
planos que me levariam direto para os braos do cara que eu adorava. 







Onze


No estava tentando escutar a conversa de Raleigh, na quinta-feira  tarde. Juro que no. E se no estivesse to confortavelmente instalada no cho da biblioteca, 
escondida atrs de uma prateleira imensa de livros, sem sombra de dvida, teria me levantado e ido para um outro lugar. Mas no pude evitar de escutar o que Raleigh 
dizia a sua melhor amiga, Monica Sayer.
- Ns vamos ao Le Bon Coin - Raleigh falou.
Esse era o detalhe que me faltava. J havia deduzido que eles iriam jantar fora e que Josh tentava fazer o possvel e o impossvel para compensar ter sido o pior 
dos namorados durante a semana inteira. Mas s ento tomei conhecimento de qual seria o destino do infeliz casal.
Monica assobiou.
- Trs chique. Raleigh suspirou.
- Josh e eu bem que estamos precisando de um lugar bem chique. Tomara que hoje a gente recupere a magia que nos manteve unidos tantos anos.
No se eu puder evitar, pensei. A partir daquele momento, Tim e eu tnhamos um jantar marcado no Le Bon Coin.
- Claro que recuperam - disse Monica. - Voc e Josh foram feitos um para o outro. Assim que a velha chama voltar a acender, voc para de ficar imaginando que ele 
quer terminar tudo.
- Tomara que sim. Do jeito que est, no vamos poder continuar. Josh anda muito esquisito, ultimamente.
A voz de Raleigh me pareceu to tristonha, que cheguei at a sentir uma pontada de remorso. Eu iria arruinar a noite dela com minha presena. Mas nada, nem ningum, 
poderia se interpor no caminho do verdadeiro amor que Josh e eu tnhamos um pelo outro. Raleigh era simplesmente uma desafortunada vtima da guerra amorosa. Mais 
cedo ou mais tarde, perceberia que o rompimento com Josh fora para melhor. Tinha certeza absoluta.

* * *

- Sara, voc est um encanto. - Tim e eu nos encontrvamos a uma mesa pequena, no Le Bon Coin. - To linda que eu me sinto quase na obrigao de no olhar.  como 
se estivesse diante do sol.
Girei os olhos e inclinei-me um pouco para a frente. 
 
- Voc est parecendo personagem de filme antigo. Menos, Tim, menos.
Depois de ter escutado a parte mais importante da conversa entre Raleigh e Monica, fui obrigada a continuar entalada atrs da prateleira de livros por mais uns bons 
quarenta e cinco minutos, enquanto as duas discutiam os penteados dos ricos e famosos. Quando elas finalmente se foram, eu sa  procura de Tim e acabei encurralando 
o coitado perto do bebedouro do primeiro andar. Mas s depois de eu ter concordado em pagar o jantar (com o dinheiro que mame havia me dado antes de viajar para 
o Japo no caso de possiveis emergncias)  que ele se disps a me "levar" ao Le Bon Coin.
Passei mais de uma hora me aprontando e, no fim, optei por uma roupa fantstica. Sabia que iria atrair alguns olhares. Meu pretinho bsico (toda mulher acima dos 
quinze anos, que se preze, tem um) nunca falha.
Tim tambm no estava mal. Para falar a verdade, qualquer garota que no estivesse obcecada por Josh, pensando vinte e quatro horas por dia no cara, acharia Tim 
incrvel. A cala cqui e a camisa branca impecvel o faziam parecer pelo menos dois anos mais velho. E gostei da gravata azul-marinho com florzinhas minsculas 
brancas. Talvez estivesse enganada, mas me pareceu que ele at havia dado uma ajeitada no cabelo com um pouco de gel.
Josh e Raleigh j estavam no restaurante, na hora em que Tim e eu chegamos. Fingi surpresa quando Raleigh esganicou um "oi", satisfeita em nos ver. A pontada de 
culpa que senti foi imediatamente apagada pela imensa satisfao de ver o bvio desprazer de Josh. Ele corou, e os olhos quase saltaram da rbita.
Tim me sorria por sobre a taa de vinho cheia de club soda empunhada por ele.
- Voc quer deixar o cara com cimes, ou ser que quer deixar o cara com cimes?
- Eu quero, mas...
- Josh no pode escutar o que estou lhe dizendo - Tim me falou, com um tom de voz baixo e rouco. - S d para ele ver que estamos conversando e que eu a devoro com 
um olhar de adorao. 
Ser que enrubesci de novo? Provavelmente deveria agra-decer a Tim por me fazer corar. De seu lugar, em uma mesa nao muito distante da nossa, Josh sem duvida iria 
observar que a emocao daquela suposta noite romantica me avermelhava as faces.
- Tudo bem, tudo bem, diga o que quiser. S no v me botar uma rosa entre os dentes e me convidar para danar um tango.
Tim riu. Vi outras pessoas nos olhando de relance, inclusive Josh. A iluminao da sala era quase toda feita com velas, mas mesmo a seis metros de distncia deu 
para perceber que os olhos azuis de Josh reluziam de raiva. Perfeito.
- Pegue minha mo - disse a Tim. O momento no poderia ser mais propcio para aumentar minhas chances.
- O qu? - Tim colocou a taa de club soda sobre a mesa com um estrpito desajeitado.
- Pegue minha mo - repeti, deslizando a mo por sobre a mesa. - Voc no est com medo, est?
- No. - Os dedos de Tim entrelaaram-se aos meus, frouxamente. - Mas talvez voc devesse ficar.
- Eu, hum... o qu? - Distra-me com o polegar dele, que me acariciava de leve a palma da mo.
- Mesmo que tudo isso de certo, o plano, o cimes, a coisa toda, talvez voc acabe percebendo que os carinhos de Josh no fazem seu corao disparar.
Obriguei-me a ignorar a sensao que me inundou inteira, quando Tim pegou minha mo. No estava reagindo de modo racional a essa histria de mo na mo. Se minhas 
emoes no se achassem to completamente  flor da pele, claro que no ficaria com aquela impresso de estar derretendo devagarinho.
- Acredite em mim... s de pensar em Josh meu corao dispara.
Tim deu de ombros e parou com os circulos lentos do polegar em minha palma.
- Quem sabe a Raleigh e eu no nos acertamos, depois que seu plano estiver concludo - ele comentou, com a mesma voz romntica e melodiosa que vinha usando havia 
vinte minutos. - Ela tem um nariz fantstico. Poderia fazer maravilhas com ele em uma escultura.
Olhei-o furiosa. Tim sabia que eu odiava o nariz empinado de Raleigh. 
 
- Voc est brincando, no est?
Ele sorriu.
- Raleigh  uma excelente garota. E bonita. A maioria dos caras daria qualquer coisa para sair com ela, mas eu tenho mais chances. Ns podemos nos encontrar e nos 
consolar mutuamente.
Bem. Esse tinha sido um discurso apaixonado. Como de hbito, eu no tinha muita certeza se Tim estava brincando ou no.
- Com licena, mas no momento tenho um encontro com o toalete feminino.
Tim afastou a cadeira e ps-se de pe, antecipando a minha sada da mesa. No via uma demonstrao tao cabal de cavalheirismo desde Titanic.
- Estarei aguardando com a respirao suspensa.
Fui para o banheiro ainda soltando fumaa por causa do comentrio sobre o nariz de Raleigh. Claro que o nariz dela era engraadinho. Mas onde estava a verve, a personalidade? 
No dava para acreditar que Tim tivesse seriamente pensado na possibilidade de namorar com a rainha da torcida da escola de segundo grau Glendale. Raleigh era uma 
rnenina legal, mas no servia para ele.
- Sara! - A voz de Josh interrompeu meu monlogo interior. Estava to absorta em minhas ruminaes que nem sequer imaginei que Josh pudesse me seguir. E, obviamente, 
no me achava preparada para esse momento de suma importncia. Parei no pequeno corredor aos fundos do restaurante, onde ficava o banheiro feminino.
- Oi, Josh.
Ele parou na minha frente, mais ou menos me fechando contra a parede.
- Voc e aquele cara esto em toda parte. Vocs por acaso passam vinte e quatro horas por dia grudados?
De azuis-escuros que eram, os olhos de Josh haviam passado a quase negros, e o rosto perfeitamente esculpido mostrava sinais de um roxo bem ntido.
- O nome dele  Tim e, respondendo a sua pergunta, no, ns no passamos vinte e quatro horas por dia grudados. - Dito isso, lancei um sorrisinho despreocupado para 
ele. - Alguma coisa mais que voc queira saber?
- Sara, por que est fazendo isso conosco? - A voz de Josh saiu carregada de emoo. - Voc no quer ficar comigo? 
- Talvez, mas a questo no  essa. - Olhei-o do alto de minha confiana. - Voc continua namorando a Raleigh, e eu no estou disposta a competir.
- Mas eu j lhe expliquei isso tudo. -Josh abria e fechava as mos, com um gesto claro de frustrao. - Puxa, no suporto ver voc se derretendo toda para aquele 
cara.
- Pior para voc. - E tomei o caminho do banheiro, mas Josh estendeu a mo e colocou-a de leve sobre meu ombro.
- Eu amo voc, Sara, e acho que voc tambm me ama.
- A gente se v por a, Josh. - Depois, encarei-o por alguns instantes com aquele meu olhar sonhador que sempre despertava nele a vontade de me puxar e me beijar 
durante nosso longo e quente vero no Maine. - At mais.
Entrei no banheiro e encostei na porta. Os pensamentos me corriam cleres pela cabea, enquanto repassava a conversa de h pouco. Meu grande amor estava prestes 
a desmoronar. Isso era to certo quanto o sol se levantar no dia seguinte. Iria conseguir obter o que queria... finalmente.

***

- Voc no me disse que ele era um gato - Maggie me cochichou quase sem flego. - Quer dizer, voc disse que ele era incrvel, essa coisa toda, mas eu no fazia 
idia de que era tao lindo.
Tinha ido direto da escola para o aeroporto pegar Maggie. At v-la na minha frente, no havia percebido como sentia sua falta. Trocamos um abrao to apertado que 
meus culos escuros voaram da cabea e aterrissaram aos ps de um turista de meia-idade de New Jersey. O olhar hostil do indivduo quase nos matou de tanto rir. 
Maggie e eu em apuros: igualzinho aos velhos tempos. 
Estvamos as duas no quintal de casa, enquanto Tim, o amigo dele Ed e papai acendiam a churrasqueira para uma refeio estritamente vegetariana ao ar livre. A me 
de Tim tinha ido at a cozinha para montar uma salada semipronta. Ou seja, no restava nada para Maggie e eu fazermos, a no ser sentar nas espreguiadeiras e tomar 
o solzinho da tarde. Fazia semanas que no me sentia to relaxada. Pelo menos naquele momento, no havia planos, tramas ou compls. Era como se eu tivesse voltado 
a ser a velha e boa Sara de sempre.
Dei uma olhada para Tim e encolhi os ombros.
- At que ele no  mau, para quern gosta do tipo.
Os cabelos ruivos de Maggie voaram de l para c, quando ela sacudiu a cabeca.
- Pra com isso, Sara. Voc tem de admitir que ele  o maior gato.
- , imagino que seja.
Do outro lado do quintal, Tim ergueu a vista. - Est pronta para fazer um giro pela minha coleo, Maggie? - gritou.
- Giro? - perguntei. De repente, percebi que estava tendo um ataque irracional de cimes porque os dois haviam feito planos sem me avisar. - Que giro?
- Convenci o Tim a me mostrar o trabalho dele. Pelo visto, ele tem uma garagem inteira repleta de vasos e potes em casa.
- A mim ele nunca convidou para dar um giro por l.
Pensando bem, nunca tinha posto os pes na casa de Tim Kaplan. Era sempre ele que vinha me ver. Quer dizer ento que Maggie iria a casa de Tim, e eu nunca tinha estado 
l? Essa idia me incomodou de um jeito perturbador.
Maggie me deu uma olhada por cima dos culos escuros de gatinho que ela havia comprado especialmente para a viagem  Flrida.
- Alguma vez voc mostrou interesse? 
- Bem... no. - Afinal, no era preciso que eu visse cada objeto de arte criado por Tim desde o instante em que ele viera ao mundo. Mas j tinha visto muita coisa 
dele, no ateli de papai. Entretanto, apesar dos pesares, no conseguia evitar de me perguntar como seria o seu quarto. Ser que havia gravuras nas paredes? Era 
cheio de objetos esculpidos por ele? Ser que os lenis ainda eram aqueles com estampas do Snoopy, dos tempos de garoto? Por melhor que eu o conhecesse, no sabia 
nada de seu mundo particular. Estava sempre preocupada demais comigo mesma para me importar com ele.
Maggie tirou a camiseta branca que usava, revelando um biquini vermelho reduzidssimo por baixo.
- Voc acha que esse sol ainda bronzeia?
Ergui as sobrancelhas.
- Bronzear, bronzeia, para quem no liga para as leis de ultraje ao pudor que temos neste estado.
Maggie sorriu de orelha a orelha.
- Sempre fui rebelde. - E fechou os olhos para o sol j baixando.
- E ento, Maggie, o que est achando da Flrida at o momento? - Ed perguntou a ela, de seu lugar ao lado da churrasqueira.
Maggie abriu os olhos e sorriu de novo.
- Estou adorando tudo, o sol, as praias, os churrascos...
- Sem esquecer dos caras fantsticos que temos por aqui - Tim falou em tom de troa, vindo em nossa direo. - Somos uma raa especial, ns, habitantes da Flrida.
Ser que detectei um tom de paquera na voz de Tim? Era algo novo para mim. Um idiota completo, era isso que ele era. Mal podia esperar para que Maggie o pusesse 
em seu devido lugar.
- Creio que preciso ver um pouco mais do que a Flrida tem para oferecer, antes de comentar sobre a populao masculina do estado - Maggie retrucou.
Tim riu.
- Acho que, nesse departamento, posso ajudar voc. Muito bem, essa histria comeava a ficar enjoativa. E tremendamente irritante. Sabia que no deveria levar em 
conta, mas no gostei da idia de Tim e Maggie juntos. 
- Tim, voc no est com um hamburguer de soja ou algo parecido na grelha? - interrompi. - A Maggie e eu estamos tentando ter uma conversinha particular.
Tim recuou alguns passos.
- Mil perdes, esqueci por um segundo que qualquer conversa que no gire em torno de Josh no vale a pena ser conversada. - E voltou para a churrasqueira.
- R-r-r - respondi. Era a primeira vez que ele me irritava tanto assim, pelo menos que eu me lembrasse. Mas tudo levava a crer que esse era o seu comportamento 
de praxe, quando se exibia para as garotas.
Ed passou a mo pelos cabelos castanhos espessos.
- Uma coisa  certa, vocs dois tem a dinmica mais esquisita que j vi para um casal de namorados.
- Muito engraado - reagi. Ed era a nica pessoa, fora Maggie, que sabia sobre Tim e eu s estarmos fingindo. Torci para que papai no tivesse entendido o comentrio. 
No estava a fim de passar por um interrogatrio.
- Voltem j para os hambrgueres! - ordenei aos dois. Quando eles se viraram para a churrasqueira, Maggie me deu um sorrisinho maroto.
- Agora me fale um pouco sobre o Ed. Ele tambem no  mau.
- O Ed  um cara legal, bl, bl, bl. - Tentei ignorar a pequena onda de irritao que ameaava desabar sobre mim. - E o Tim no  to gato assim.
Certo, pega leve, Connelly, disse para mim mesma. Maggie era a melhor amiga que eu tinha neste mundo e Tim era o melhor amigo que eu tinha na Flrida. No havia 
motivo para no me sentir felicssima por estarem se dando to bem. Exceto pelo fato de que a simples idia me fazia querer vomitar.
- Mal posso esperar pela festa de hoje  noite - falei, pronta para desviar o assunto da figura de Tim por uns tempos.
- Voc finalmente vai conhecer o Josh. - Danny Sebree, o zagueiro do time de futebol, iria dar um festo para comemorar a viagem de duas semanas dos pais a Europa. 
- Mas me conte sobre o Matt. 
Maggie suspirou dramaticamente. Quase pude ver a imagem de todos os outros meninos - a de Tim inclusive - esvairem-se de sua mente. Fato que, devo admitir, me deu 
uma imensa sensao de alvio. - Ele  maravilhoso... - ela comecou.
Enquanto Mags partia para seu monlogo sobre as virtudes de Matt Brewer, fechei os olhos e me preparei para ouvir. A vida era simplesmente isto: uma reunio com 
os amigos - em uma tarde ensolarada.
Sim, era certeza quase absoluta de que Josh e Raleigh iriam a festa. E, se eles fossem, eu estava disposta a fazer algo bem maluco para chamar a ateno de Josh. 
S no queria pensar na cena, propriamente dita, at ser absolutamente necessrio mont-la. Por enquanto, o melhor era ir devagar com o andor, sentir o doce cheiro 
do mar e curtir a vida. 
Dicionrio de Sara das Cinco Palavras Mais Importantes da Lngua

* * *

Amar, v. t.d. 1. Querer muito bem; sentir ternura, afeto ou paixo por algum. 2. Sentimento prazeroso de dedicao pessoal ou profunda afeio. 3. Ter amor; estar 
enamorado.

* * *

Amizade, s.f. 1. Sentir grande afeio, simpatia, por algum que no  necessariamente parente. 2. Grande apreo ou perfeito entendimento entre pessoas. 3. Aquele 
que  amigo, companheiro, camarada.

* * *

Honestidade, s. f. 1. Qualidade ou carter de honesto; honradez, dignidade. 2. Veracidade, sinceridade ou decncia. 3. Aquilo que  isento de burlas ou fraudes. 
4. Castidade; pureza; virtude.

* * *

Sofrer, v. t. d. e ind. 1. Sentir dores ou um grande abalo. 2. Passar por, experimentar sofrimentos, desvantagens ou perdas. 3. Suportar ou padecer algo em carter 
temporrio ou crnico.

* * *

Sonhar, v. t. d. e ind. 1. Sucesso de imagens, pensamentos ou emoes que passam pela mente durante o sono. 2. Almejar, ansiar por algo. 3. Desejar algo com insistncia; 
fazer castelos no ar. 




























Doze


J fui a muitas festas em Portland. Alis, dei um bocado de festas em Portland. Mas todas elas foram apenas reunies entre um punhado de amigos, se comparadas ao 
festo na casa de Danny Sebree. Metade da Glendale amontoava-se na sala de estar e na cozinha dos Sebrees. A outra metade esparramava-se pelos gramados da frente 
e dos fundos.
Levei quase quinze minutos, mas acabei localizando Josh no meio do pessoal que danava na sala. Ele embalara em uma verso mais leve de slam dancing ao som do Smashing 
Pumpkins. Como de hbito, me pareceu para l de fantstico.
Havia parado perto da porta que ia da sala para a cozinha, de onde podia ver tanto Josh quanto Raleigh. Numa atitude ultra-tpica de torcedora nmero um da escola, 
Raleigh comandava as coisas na cozinha, de onde iria sair uma leva de pat de cebola. Infelizmente, a garota estava o mximo. Tinha aposentado o uniforme de garota 
boazinha em troca de uma saia preta justrrirna e um top sem ala. Nunca tinha percebido que a rainha das quadras podia ser assim to... bem... sexy. Essa era a 
palavra.
Virei-me para Maggie, a meu lado.
- E ento, o que voc achou?
Seu olhar percorreu a sala.
- Estou achando essa festa incrvel.  impresso minha ou todos os gatos do pas migraram para a Flrida?
Dei risada.
- Pensei que voc estivesse apaixonada pelo Matt.
Maggie ergueu as sobrancelhas.
- Isso no significa que no possa apreciar as coisas belas da vida, como por exemplo o traseiro gracinha daquele cara.
Segui o olhar dela.
- Ah,  o C.J. Rouse. - Minha amiga tinha razo. C. J. possua um belo traseiro. - Ele namora a Eleanor Stritch.
Transferi meu olhar para Josh.
- Quer dizer que agora voc entende por que me meti nessa loucura? - perguntei a Maggie, inclinando a cabea para os lados de Josh.
Ela encolheu os ombros.
- , sem dvida, ele  legal. 
 
Legal? Josh ultrapassava todas as fronteiras do legal. Mas como esperar que Maggie apreciasse suas infinitas qualidades sem ter falado com ele? Ela nunca ouviu os 
elogios que eu escutei em voz sussurrada, nunca riu de seus comentrios espirituosos. Nunca o viu disparar pelo campo de futebol em controle total da bola.
- Tudo bem, vou parar de tentar convenc-la de que Josh e eu somos almas gmeas. - Eu tinha cansado das reaes muito pouco entusiastas de Maggie em relao a tudo 
o que dissesse respeito ao cara dos meus sonhos. - Entretanto, vou lhe mostrar como uma garota transforma o homem de suas fantasias no homem de sua vida.
- Hum... ah. L vamos ns - disse-me ela, em um tom de voz meio professoral, mas pude ver a curiosidade cintilando em seus olhos verdes. Maggie estava louca para 
saber o que eu iria aprontar, e eu louca para por mos a obra.
- Cad o Tim? - perguntei.
Embora Maggie, Ed e eu tivssemos ido no carro de Tim, ele havia desaparecido de vista assim que entramos na casa de Danny.
Percorri a sala lotada at que por fim meus olhos o encontraram. Tim estava parado ao lado do aparelho de som, entretido no que me pareceu uma discusso acalorada. 
Provavelmente debatia os mritos relativos do Hole em relao a Andy Gibb. J havia reparado que o gosto musical dele pendia para o nostlgico.
Agarrei Maggie pelo cotovelo e arrastei-a em direo ao som, que tomava todo um canto da sala. Curvei-me sobre uma pilha de discos a procura da cano romntica 
perfeita. Quando encontrei o disco ideal, abri o encaixe do CD. Adeus, Smashing Pumpkins.
- Ei, o que houve com a msica? - algum berrou.
- J vai, j vai - gritei de volta. - S mais um minutinho.
- Introduzi o CD escolhido com todo o carinho, aproximei-me de Tim e passei o brao por sua cintura.
- Preparado para mais uma atuao digna de um Oscar? - perguntei.
Tim franziu a testa.
- O que voc tem em mente? 
- J vai ver. - Peguei a mo dele e levei-o para o meio da sala. A mudana de msica tinha provocado justamente o efeito que esperava. As violentas contores de 
antes tinham sido substitudas por alguns rostos colados.
Tim enlaou minha cintura, e eu pus as mos em volta de seu pescoo. Em segundos, olhvamos fundo um nos olhos do outro e danvamos como se estivssemos to-somente 
buscando uma desculpa para nos aproximar.
Meu parceiro me puxou mais para perto, e eu descansei a cabeca em seu peito. Por alguns segundos, fechei os olhos e me entreguei a msica suave, romntica. Uma parte 
de mim desejava apenas danar ao sabor da melodia, nos braos de Tim. Mas tinha trabalho a fazer.
Abri os olhos e dei uma espiada na sala. Josh e Raleigh tambm danavam, no muito longe de ns, enlaados nos braos um do outro do mesmo jeito que Tim e eu. Cinco, 
quatro, tres, dois, um...
Ele me viu. Na verdade, viu os dois. E no me pareceu muito satisfeito. Virei a cabea para cima e fitei uma vez mais os meigos olhos castanhos de Tim. Respirei 
fundo, enchendo os pulmes de ar quase a ponto de estourar. O momento havia chegado. Um, dois, trs. Expirar.
Firmei as mos no pescoo de Tim e puxei sua cabea para mim.
- No v me deixar na mo - cochichei.
Tim meneou a cabea de maneira quase imperceptvel. Instantes depois, estvamos nos beijando. Os lbios macios e quentes de Tim aproximaram-se dos meus, devagar. 
O resto da festa, o mundo inteiro, parecia ter sumido por completo durante aquele abrao apertado em que ns nos beijamos, nos beijamos, nos beijamos. As mos de 
Tim afagavam minhas costas e meus dedos encontraram sozinhos o caminho at seus cabelos castanhos.
Vindo de muito, muito longe, uma voz me dizia que o propsito daquele beijo no era o de me divertir. A inteno era deixar Josh enciumado. Forcei-me a abrir os 
olhos. Furioso, Josh tinha largado Raleigh plantada no meio da sala e estava vindo direto para cima de Tim.
Afastei os lbios da boca de Tim e recuei um pouco. 
-Beija isso aqui, , Kaplan! -Josh berrou.
-O qu...! - Tim exclamou.
O brao de Josh ergueu-se de repente, e o punho desceu direto no rosto de Tim.
Olhei horrorizada. Tim estava estatelado no cho, com sangue jorrando do nariz.
-Josh, o que voc est fazendo! - gritei.
-Minha nossa! - O brado veio de Maggie, que correu para o lado de Tim.
Ajoelhei-me do lado e pus a cabeca dele no colo. Minha trama tinha fugido totalmente ao controle.
-Tim, tudo bem com voc? - sussurrei.
-Acho que sim... estou meio zonzo. - A voz dele era baixa, e as palavras saram arrastadas.
-Josh, voc enlouqueceu? - Raleigh berrou de longe. - O que est havendo?
Josh olhou de mim para Raleigh.
-Eu, hum... eu no sei. - Estava ofegante, o rosto avermelhado.
C. J. e Danny aproximaram-se e pegaram Josh pelos braos. - Calma, cara - disse Danny. - Controle-se.
-Olha, use isto aqui para limpar o sangue. - Raleigh estendeu um pano de prato.
Peguei o pano e enxuguei o sangue que escorria do nariz de Tim. Eu era uma idiota completa. As coisas no estavam saindo conforme o planejado.
-Hum... obrigada.
Ergui os olhos e vi que Josh me olhava.
-Venha, Sara. Ns vamos embora. - Afastando-se de C. J. e Danny, Josh me estendeu a mo.
-Josh, eu...
-Agora - ele interrompeu, os olhos furiosos. Raleigh franziu o cenho.
-Josh, fale comigo! - Ela parecia prestes a chorar. - No estou entendendo nada.
-Eu sinto muito, Raleigh - Josh falou, num tom bem mais gentil. - Mas a Sara e eu temos de ir embora.
Em meu ntimo, travava-se uma batalha feroz. O sangue continuava pingando do nariz de Tim e ele no parecia nem um pouco apto a se levantar. Metade de mim queria 
sair correndo da festa, ao lado de Josh, e a outra metade queria ficar e cuidar de Tim. Quer dizer, ele tinha levado um soco por mim... s que, por outro lado, Josh 
tinha dado um soco por mim. At ali, e em todos os meus anos de encontros e namoros, ningum havia feito nem uma coisa nem outra! 
- Voc quer ir embora com ele, Sara? - Tim perguntou baixinho. -  isso que voc quer?
Engoli em seco.
- Eu... eu...
Senti os olhos de Maggie fixos em mim e virei-me para ela.
- Mags, o que voc acha? - cochichei.
Seu olhar respondeu a minha pergunta. Fique. No o deixe aqui sozinho. Mas, em voz alta, tudo o que ela me disse foi:
- Cabe a voc decidir.
Em algum lugar, ao fundo, eu ouvia a voz de Raleigh. Ela parecia bastante perturbada, mas eu estava concentrada demais no debate que ocorria dentro de mim para entender. 
Tudo o que eu sabia  que as coisas pioravam cada vez mais e em um ritmo acelerado.
- V em frente, Sara - Tim sussurrou por fim. - Eu estou bem.
Dei uma olhada para Maggie.
- Eu assumo, daqui para a frente - ela disse, abaixando-se para colocar a cabea de Tim em seu colo. - Eu dirijo o carro dele. Pode deixar.
Pelo que me pareceu uma eternidade, fitei o rosto ensangentado de Tim. Fique. V. Fique. V.
- Sara, vamos -Josh ordenou, enfezado. - Vamos dar o fora daqui.
Ergui-me do cho; eu tinha esperado tempo demais por esse momento para deix-lo escapar.
- Tem certeza de que  isso que voc quer fazer? - Maggie perguntou em voz baixa.
Meneei a cabeca devagar. Em seguida, lancei um olhar culpado para Tim e segui Josh pela sala. Ao sair, senti os olhos de Raleigh abrindo um buraco em minhas costas.
- No faa isso, Josh! - ela ainda gritou. - No me deixe!
Mas Josh continuou em frente, e eu atrs. A cada passo, esperava ser tomada por sentimento eufrico que no vinha e, finalmente, ao cruzar a porta da frente, me 
senti pssima.
Josh tinha optado por mim e tudo em que eu conseguia pensar era no sangue escorrendo pelo rosto de Tim. Eu vencera, mas a que preo?

***

Vinte minutos depois, Josh e eu paramos no estacionamento ao ar livre da praia. Do banco do carro, dava para enxergar as ondas negras arrebentando na areia. Vi quando 
Josh desligou o motor, mas s conseguia pensar em Tim. 
 
Ambos havamos feito o trajeto praticamente em silncio, at ali. Eu no sabia o que lhe ia pela cabea, mas, de minha parte, estava tomada pelas imagens recentes 
da festa. Ainda escutava a voz de Tim me dizendo com toda a delicadeza para ir embora com Josh. E lembrava tambm do olhar de decepo no rosto de Maggie; eu no 
tinha agido como uma melhor amiga costumava agir. Segui meu corao e deixei os amigos para trs. Cometera um grande erro, mas no havia nada para consert-lo. O 
dano fora feito... ao menos at que pudesse me desculpar.
Josh agarrou o volante com tamanha fora que, mesmo no escuro, dava para perceber que os ns dos dedos estavam esbranquiados. Obviamente, havia chegado a hora de 
termos uma conversa. Expulsei a custo os pensamentos de Tim da cabea, pigarreei e disse:
- Josh? O que houve hoje, exatamente? Ele largou o volante e se virou para mim.
- No posso mais continuar fingindo. Sempre vou gostar da Raleigh, sempre, mas preciso aceitar de uma vez por todas que no estou mais apaixonado por ela. Talvez 
nunca tenha estado.
Meu corao deu um salto, meus olhos se encheram de lgrimas e meus braos se arrepiaram. Ouvir essas palavras da boca de Josh era algo quase irreal. Havia imaginado 
esse momento tantas vezes que mal podia acreditar que estivesse de fato acontecendo.
- Voc est falando a srio mesmo?
Ele meneou a cabea.
- Estou. - Inclinando-se, Josh desligou o rdio do carro. - Vou terminar com ela amanh... se  que j no est tudo terminado entre ns.
- Certo... timo.
No sabia mais o que falar. Quer dizer, aquele era o tipo de situao em que a gente se imagina deslanchando em um discurso preparado de antemo, ou algo parecido. 
Mas eu no tinha nada a dizer... absolutamente nada.
- Eu amo voc, Sara. -Josh me abraou e me puxou mais para perto.
Finalmente eu o tinha inteiro para mim. Quando ele se curvou, para me beijar, agradeci em silencio a quem quer que fosse ou ao que quer que fosse que controla o 
universo. Tinha obtido o que queria. 
 
- Esperei por isso tanto tempo -Josh sussurrou. -  assim que est certo - voc e eu, juntos, para sempre.
Os doces lbios de Josh tocaram os meus. Retribui o beijo, enlaando seu pescoo e deslizando as mos por seus cabelos loiros to macios. Esperei pela emoo descompassada 
que tinha sentido no Maine. Esperei pela onda de amor e afeto. Em vez disso, descobri-me comparando aquele beijo ao de Tim. Lembrava-me de como minha espinha havia 
formigado inteirinha na hora em que Tim me dera um beijo. Lembrava-me da sensao das mos de Tim em volta de minha cintura, segurando-me bem apertado enquanto danvamos. 
Qual seria o problema comigo? Estava seriamente confusa. Este momento tem a ver com voc e o Josh, disse para mim mesma. Esquea o Tim.
Os lbios de Josh passaram de minha boca para meu rosto, depois para a orelha, e a expresso para sempre ecoou em meu crebro. Ser que eu desejava realmente ficar 
com Josh para sempre?
Josh afastou-se e me fitou bem nos olhos.
- Diga-me que est tudo terminado entre voc e aquela idiota. Diga-me que daqui em diante voc ser minha e apenas minha.
No achei que fosse o momento ideal para ressaltar que Tim no era um idiota. Em vez disso, sorri e acompanhei o contorno dos lbios de Josh com o indicador. Obviamente, 
eu havia me descontrolado um pouco s porque ainda no podia acreditar que aquilo estivesse ocorrendo. Claro que eu queria ficar com Josh para sempre; vinha sonhando 
com isso fazia meses.
- Lgico que eu sou sua - sussurrei. - Eu sempre fui sua.
Mas, quando nos beijamos de novo, minha cabea achava-se a quilmetros dali. No me vi tomada por aquela onda arrasadora de amor que havia experimentado nas noites 
do acampamento.
Eu s preciso de um pouco de tempo para me acostumar com isso tudo. Daqui a alguns dias, tudo estar perfeito.

*** 
 
Parada na frente de casa, fiquei vendo o carro de Josh se afastar, at que as luzes traseiras sumiram no negrume da noite. Continuava a espera de uma onda de euforia, 
mas por dentro me sentia murcha. Entretanto, essa minha tristeza no tinha nada que ver com Josh, quanto a isso no restava a menor dvida. Simplesmente me sentia 
pssima por ter deixado Tim e Maggie sozinhos na festa. Eu tive um comportamento vergonhoso e sabia que precisava encontrar um modo de faz-los compreender quanto 
eu lamentava minhas aes.
Eu ia pedir desculpas para Maggie imediatamente. Se ela me perdoasse, talvez ainda houvesse tempo para dar um pulo at a casa de Tim. Poderia implorar logo pelo 
perdo dele, assim no teria de conviver nem mais um minuto com aquela culpa horrenda.
Encaminhei-me para a porta da frente, compondo meu pedido de desculpas na cabea. Ao chegar perto da varanda, escutei um vago som de vozes vindo do quintal.
Abri um sorriso imenso. No consegui entender o que diziam, mas no havia a menor dvida de que Tim e Maggie estavam sentados no deque. Isso era maravilhoso; eu 
poderia pedir desculpas aos meus dois melhores amigos, e depois ir deitar com a conscincia limpa. Pela manh, j teria me acomodado s novas condies do relacionamento 
com Josh e seria feliz, muito, muito feliz.
Fui praticamente saltitando quintal afora, a caminho do deque. A noite iria acabar bem, no fim das contas.
Mas estaquei, paralisada, quando avistei o deque. Maggie e Tim estavam l, mas no estavam conversando. Meus dois melhores amigos estavam abraados de um jeito bem 
ntimo. De repente, lembrei-me da maneira como tinham se paquerado durante a tarde, e a pontada de cimes voltou, s que dessa vez um milho de vezes mais forte.
Lembrei-me da forma como Tim havia me beijado antes. Ser que havia beijado Maggie do mesmo jeito? Por razes que nem sequer poderia imaginar essa hiptese me deixou 
maluca. 
No conseguia me mexer. Era como se Mike Tyson tivesse acabado de me dar um murro no estmago. No conseguia respirar e havia manchinhas minsculas negras diante 
de meus olhos. Ainda assim, deu para ver que Tim afagava o rosto de Maggie do mesmo jeito como havia afagado o meu, quando danamos.
- O que vocs esto fazendo? - berrei. Nem me dei conta de que as palavras saram de minha boca, at que elas j estivessem avanando cleres pelo ar, para aterrissar 
nos ouvidos de Tim e de Maggie.
Chacoalhei fora minha paralisia temporria e marchei em direo ao deque.
- O que vocs esto fazendo? - repeti tolamente. Quer dizer, era bvio o que eles estavam fazendo. Estavam namorando.
- Ah, oi, Sara - Maggie disse, obviamente assustada comigo. - No espervamos que voc voltasse to cedo.
- Como vai o nosso gal? - Tim perguntou. Os olhos dele pareciam sombrios e a voz soou distante, de um jeito que jamais tinha ouvido. Era como se falasse com uma 
estranha.
Senti-me presa de uma raiva inexplicvel, cuja fora me deixava zonza.
- No acredito que eu cheguei a me sentir mal por ter deixado vocs l na festa!
- Sara, o qu... -Tim levantou-se e deu um passo em minha direo.
- Tudo bem, esqueam. Voltem a fazer o que estavam fazendo. - E foi a que eu quase engasguei. - Eu ia pedir desculpas a vocs, mas deu para perceber que esto ambos 
se saindo muito bem sem mim.
- Voc est bem? O que foi que houve? - Maggie acrecsentou.
- Eu... eu... - No encontrei palavras para comunicar o que estava sentindo e pensando. No sabia o que estava sentindo ou pensando. S sabia que a minha maior vontade 
era me afastar de Tim e de Maggie o mais rpido possvel. Em vez de respondei  pergunta dela, virei-me e fugi, despedaada de cimes, raiva e tristeza. 
 
Receita de Sara para o Desastre

Para qualquer um interessado em passar a pior noite de toda a histria de sua vida, eis aqui um prato picante que vai agradar ao mais exigente paladar. Infelizmente, 
falo por experincia prpria.

1 grande amiga em visita
1 cara excelente a quem voc considera amigo
1 atleta bonito, mas, no fim das contas, meio limitado e por quem voc pensa estar apaixonada
1 namorada do atleta bonito, mas, no fim das contas, limitado
1 vestido branco curtinho
1 par de sandlias combinando

Modo de provoc-lo:

Aplique o vestido e as sandlias a sua pessoa. Depois junte a melhor amiga, a namorada e os dois caras, preferivelmente durante uma festa bem animada e cheia, onde 
qualquer incidente desagradvel tem timas chances de causar srios danos no ego de todos os envolvidos. Assim que a festa estiver bem quente, d seguimento  cena 
preferida. Por fim, fuja do local e espere at a ficha cair. Garanto que no haver decepes. 






Treze


J tinha deitado havia bem uma hora, mas nada de o sono chegar. Contei carneiros, recitei o alfabeto sessenta vezes e revi cada detalhe de meu relacionamento com 
Josh. Porm, continuava totalmente desperta. E estar consciente, cm um momento desses, era pura tortura.
O nico assunto sobre o qual teria preferido no pensar, ou seja, a raiva que sentia de Tim e de Maggie, foi justamente aquele que no me largou um segundo. Eu estava 
um trapo. Passava da uma da manh quando escutei a porta de trs ser aberta com cuidado, e depois fechada.
Maggie subiu as escadas p ante p, mas no adiantou porque a madeira rangeu do mesmo jeito. Instantes depois, ela parou na frente da porta de meu quarto. Veio um 
toc-toc-toc bem suave.
- Sara? - sussurrou. - Voc esta acordada? - A porta se abriu alguns centmetros.
Fechei os olhos mais que depressa e tentei relaxar os msculos do rosto. No conseguiria conversar com Maggie, no naquele momento. No saberia o que dizer para 
ela, ainda no tinha entendido por que tinha reagido com tanta violncia ao v-los abraados no deque. No me permitira entender.
- S queria lhe dizer que no esta rolando nada entre o Tim e eu - Maggie falou com suavidade. - Tudo o que voc viu foi um abrao amigvel. Mas a gente conversa 
sobre isso amanha. Tente dormir um pouco. E lembre-se: boas amigas para sempre.
Dito isso, ela fechou a porta e, sem fazer barulho, cruzou o corredor ate o quarto de hospedes. 
Abri os olhos e fitei o teto, agradecendo a Maggie em silncio por ser uma amiga to fabulosa. Ela sempre dizia o que eu precisava ouvir. Repassei as palavras dela 
mentalmente e, por fim, as lgrimas jorraram e escorreram pelo rosto. Senti um misto avassalador de alvio e angstia, com cada lgrima derramada. No est rolando 
nada entre o Tim e eu. Por que aquela frase significava o mundo, para mim... muito mais do que Josh dizer que me amava? Na cabea, rodei um filminho dos ltimos 
meses de minha vida. Vi a mim mesma, sorridente e animada no Maine, com beijos a beira da fogueira e longos passeios romnticos em volta do lago. Lembrei-me dos 
elogios de Josh. Adorava todos eles, sem exceo. Mas fui percebendo aos poucos que ns nunca nos comunicamos de fato. Josh no me conhecia.
Depois pensei em Tim. Lembrei-me do jeito como ele me olhou, no dia em que esculpiu meu rosto. Tim sabia que eu tinha medo de tubares. Sabia que, acima de qualquer 
outra coisa, eu desejava que meus pais encontrassem algum para amar e com quem pudessem dividir a vida. Tim conhecia as montanhas e vales de meu humor. E eu tambm 
o entendia. Reconhecia a expresso no olhar, quando lhe vinha uma nova idia criativa. Ouvia ate a impacincia sutil da voz, quando tentava explicar o conceito de 
recibos para papai.
Por fim, pensei no beijo de Tim. Fora um momento perfeito no tempo, ate que o destru. E se por acaso o beijo tivesse continuado... por muito e muito tempo? Nada 
me parecia mais maravilhoso, mais desejvel que aquilo.
E, ento, me dei conta daquilo que no fundo j sabia havia um bom tempo. No estava apaixonada por Josh. Talvez nunca tivesse estado. Mas eu estava apaixonada. Estava 
louca, desesperada e totalmente apaixonada pelo cara mais maravilhoso que eu j havia conhecido na vida. Eu estava apaixonada por Tim. 
Como pude ter sido to insuportavelmente burra? Tim era o cara que me fazia rir. Era ele quem tinha demonstrado, muitas e muitas vezes, ser digno de meu respeito, 
de minha admirao, de minha confiana. Tim me apoiara em tudo, desde o primeiro dia em
que o conheci.
Ah, Tim, por que no enxerguei que era voc, o meu sonho? Persegui Josh feito um demnio e, nesse processo, deixei que Tim visse os piores aspectos de minha personalidade. 
S de lembrar das coisas que eu havia pedido a ele para fazer em nome de minha obsesso me arrepiava inteira de horror.
No havia a menor esperana de conseguir conquistar o corao de Tim depois de tudo que acontecera. Eu o deixara na mo justamente quando mais ele precisou de mim, 
e tinha agido como uma louca varrida no deque. No havia lhe oferecido nem mesmo um pedido de desculpas, que ele tanto merecia. Como ele poderia me perdoar, que 
dir me amar?
No tentei interromper as lgrimas que escorriam pelo meu rosto. Por que haveria de tentar? Eu tinha estragado toda e qualquer oportunidade para conquistar o amor 
de Tim ao agir como uma menininha egosta e mimada. No havia a menor possibilidade de que ele se apaixonasse por mim depois de tudo.
Entretanto, lembrei-me de que, mesmo nos meus momentos de mais absurda loucura, Tim tinha estado a meu lado. Ele sempre me perdoou. Seria possvel que sentisse por 
mim o mesmo que eu sentia por ele? No fui capaz de apagar a tnue chama de esperana que se acendeu em meu corao. Talvez, quem sabe, no fosse tarde demais para 
ns.

***

Tinha dormido mais ou menos quarenta e cinco minutos ao todo, quando toquei a campainha da residncia dos Nelsons no sbado de manh, bem cedo ainda. Graas a Deus 
estava preparada para os acordes de "When the Saints Go Marching In". No conseguiria lidar com mais surpresas do que o absolutamente necessrio. 
Eu havia me levantado s sete da manh, depois de um esforo tremendo, e deixado um bilhete para Maggie, pedindo desculpas. Enfiei o bilhete por baixo da porta, 
e ela o encontraria quando acordasse (provavelmente por volta do meio-dia). Em seguida, parti com a misso de consertar o mundo. Falar com Josh seria a primeira 
fase.
Foi ele quem atendeu a porta. No parecia muito melhor do que eu. Os olhos estavam vermelhos, e o cabelo era uma maaroca em desalinho. Pelo visto, tampouco ele 
havia conseguido pregar o olho.
- Ns cometemos um erro enorme - falei mais que depressa. - Voc viu o Tim me beijar e sentiu cimes.
- Sara, eu...
Ergui a mo.
- Deixe-me terminar. - Respirei bem fundo. - Ns nos divertimos a bea no vero passado, mas... - Puxa, era impossvel algum se sentir pior que eu. Josh tinha finalmente 
se apaixonado por mim e eu ali, prestes a despedaar-lhe o corao.
- , pois , foi um vero incrvel.
- Mas acho que nos empolgamos demais... e... Estou apaixonada por outra pessoa. - Calei-me durante uns momentos. - Estou apaixonada pelo Tim.
Era a primeira vez que dizia isso em voz alta. Minha cabea parecia querer explodir. Literalmente. No ficaria nem um pouco surpresa se meus miolos comeassem a 
sair pelas orelhas e se esparramassem na entrada da casa dos Nelsons. Eu amava o Tim. Eu o amava. Ah, nossa, isso era o mximo! Era a coisa mais incrvel que j 
tinha me acontecido na vida!
- Sara, posso lhe dizer uma coisa? -Josh perguntou. Torci para que ele no comeasse a me implorar amor. Sentia-me culpada o suficiente.
- Claro.
Josh passou a mo pelos cabelos loiros cados na testa, um gesto que antes eu achava cativante, mas que s me deixou mais nervosa ainda.
- Concordo com voc.
Arregalei os olhos.
- O que?!
- Voc tem toda a razo. Passei a noite toda acordado, pensando. Um pouco antes de raiar o dia, percebi que essa coisa toda entre ns  pura loucura. Quer dizer, 
ns nem sequer nos conhecemos direito. 
- Ah. - Sorri. No sei por que, mas, por algum motivo, aquela conversa de repente estava me dando uma vontade doida de rir. - Muito bem.
- Fico feliz que voc tenha chegado  mesma concluso que eu, no queria mago-la. - Josh inclinou-se e me deu um beijinho suave na testa. - Voc  uma grande garota, 
mas no  a garota
que quero para mim.
- Quer dizer ento... que voc vai voltar para a Raleigh? - Por mais chocante que isso possa parecer, torcia para que a resposta dele fosse sim.
- Bem, ns no chegamos a terminar oficialmente. Eu ainda nem falei com ela depois da festa de ontem. Ela, provavelmente, est com dio de mim.
A voz de Josh veio cheia de desespero e pesar. Reconheci de imediato aquele tom, era igualzinho ao meu, no dia em que contei para Maggie, por telefone, que Josh 
j tinha uma namorada. Finalmente, uma viso mais completa de tudo o que ocorreu nas ltimas semanas foi surgindo das profundezas de minha mente obscurecida.
Josh estava apaixonado por Raleigh. Josh sempre esteve apaixonado por Raleigh. Sim, ele at que gostava de mim. Sentia atrao por mim. Tinha certeza quase absoluta 
de que houve momentos, no vero que passamos no Maine, em que ele at se convenceu de que me amava. Mas fui apenas e to-somente uma distrao, uma distrao eficaz. 
Ele jamais teria me mandado aquela to prometida carta. Se no tivesse brincado com a cabea dele, nessas ltimas semanas, jamais teria duvidado de seus sentimentos 
em relao  Raleigh.
- Ela vai perdoar voc.
Havia lgrimas nos olhos de Josh, quando me olhou.
- Voc acha mesmo? Por qu? Como?
Dei risada. Quem haveria de acreditar que um dia eu estaria dando conselhos romnticos a Josh Nelson? A vida era mesmo um grande absurdo. No entanto, alguma coisa 
me dizia que toda essa maluquice tinha servido para me mostrar o caminho ate meu prprio corao. S torcia para que pudesse encontrar Tim no ponto final.
- Por que ela ama voc. 
- Espero que sim. Bem, ento a gente se v por a - Josh disse, com um tom suave.
- Certamente.
Fiz meia-volta para percorrer a alameda de lajotas mais uma vez. Como da ltima vez, meu corao disparou no pequeno trajeto da porta da frente ate o carro. S que 
aquelas marteladas doloridas dentro do peito no tinham nada que ver com Josh. Meu corao tinha sado de compasso porque eu havia descoberto finalmente quem era 
meu verdadeiro amor... E iria busc-lo.

* * *

A velha caminhonete de Tim estava no estacionamento da praia, como eu esperava. No dia anterior, ele havia me dito que planejava dar um mergulho logo cedo. Devido 
 hora, eram muito poucos os carros ali parados. E eu j tinha passado tempo suficiente na Flrida para saber que todos aqueles veculos pertenciam a pescadores 
e surfistas esperanosos.
Pisei no breque do Oldsmobile e desliguei o motor. Sabendo que Tim se encontrava por perto, era como se eu no pudesse esperar nem mais um segundo para despejar 
todos os meus sentimentos em cima dele. Pouco me importava que me virasse a cara e me dissesse que nunca mais queria me ver. Precisava lhe contar como me sentia.
Tentei correr ate a beira da gua, mas minha sandlia de dedo a todo o momento enroscava na areia. Esteja l, rezei. Por favor, por favor, esteja na praia.
Ento eu o vi. Tim estava com roupa de mergulho, concentrado em prender um cilindro de ar nas costas. Nunca, em toda a minha vida, eu tinha visto algo to lindo. 
Seria possvel que algum dia eu tivesse dado o cano em Tim e nas aulas de mergulho para ficar com Josh? Inacreditvel.
- Tim! - gritei. - Tim!
Ele largou o cilindro de oxignio.
- Sara!
Corri para ele, corri de verdade. Quando cheguei mais perto, vi que tinha a pele plida e o nariz avermelhado, resultado do soco que Josh lhe dera. Estava com um 
aspecto quase to ruim quanto o de Josh, coisa que, por algum motivo perverso, interpretei como sendo um bom sinal. Puxa, garotas desesperadas se agarram a qualquer 
coisa. 
- Podemos conversar um instante? - pedi. - Prometo que no haver mais gritos.
Tim aboletou-se graciosamente na areia e me olhou com ar
de interrogao.
- Estou ouvindo.
Sentei-me ao seu lado, com o corao batendo mil vezes por
minuto.
- Fui uma tola, uma idiota. Tim sorriu.
- Por enquanto, concordo com o que voc diz. Certo, eu merecia isso.
- No estou apaixonada pelo Josh. Acho que nunca estive. Voc tinha razo, eu s no queria perder.
Ele meneou a cabea.
- Fico feliz que tenha percebido isso.
Ao dizer isso, levantou-se de novo.
- Se no tem mais nada que me dizer, vou dar um mergulho.
Pus-me de p mais que depressa. Obviamente, ele no sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele. Mas ainda assim era preciso que eu dissesse aquelas palavras, pois 
elas me perfuravam o crebro.
- Mas estou apaixonada, Tim.
Ele estacou na mesma hora.
- Est?
Acenei com a cabea, tentando memorizar o formato e o tamanho de cada centelha dourada que reluzia naqueles olhos cor de chocolate.
- Estou apaixonada por voc.
Durante um momento, que me pareceu longo demais, Tim no disse nada. Olhou para o mar, depois para o estacionamento, e ento, por fim, para mim.
- Voc me magoou muito ontem a noite, Sara.
- Eu sei.
Como explicar que a garota que saiu da festa e o largou l plantado no cho no era eu? Que aquela era algum alter ego diablico que eu matei e enterrei na noite 
anterior?
- Sinto muito mesmo. Nunca vou me perdoar por ter abandonado voc do modo como fiz.
- Levei um soco no nariz e voc conseguiu a noite romntica que tanto queria com o cara de seus sonhos.
- No teve nada de romntica. O tempo todo que passei com o Josh, s consegui pensar em voc.
Deu para reparar que a fisionomia suavizou-se bastante.
- Verdade?
Concordei.
- Pensei na imbecil que tenho sido e lembrei do jeito como voc me beijou. - A essa altura, j murmurava as palavras. - Acho que percebi assim que sai da festa que 
Josh no era quem eu queria. Que era de voc que eu gostava. 
 
- Tem certeza?
- Nunca estive to certa de uma coisa em toda a minha vida.
Por fim, Tim deu uma olhada para o cu.
- Obrigado - ele sussurrou. Dando um passo adiante, colocou os braos em meus ombros. Depois me puxou para si e me enlaou junto a seu corpo alto e esbelto. - Voc 
nem imagina ha. quanto tempo espero para ouvir voc dizer isso.
Sorri o sorriso mais expansivo de toda a minha existncia. Nunca havia me sentido to feliz quanto naquele momento. Era como se estivesse derretendo em seus braos. 
E nos deixamos ficar ali mesmo, um nos braos do outro, em silencio, aproveitando o calor de nossos corpos.
Mais tarde, afastei-me de leve e olhei-o nos olhos.
- Desculpe ter me descontrolado com voc e a Maggie, ontem  noite. Acho que estava enlouquecida de cimes.
Tim riu sonoramente.
- Coitada da Maggie. Teve de ficar me escutando horas e horas - disse, dando um aperto ligeiro em meu brao e um beijo de leve em minha testa. - Ver voc saindo 
da festa com o Josh foi uma punhalada. Simplesmente no consegui mais guardar meus sentimentos.
- Uau. - Isso era bom demais para ser verdade. Colocando um dedo sob meu queixo, Tim inclinou-se para a frente, de modo a que nossas testas se tocassem.
- Contei tudo para a Maggie. Contei a ela como me apaixonei por voc no primeiro segundo em que a vi. Contei a ela que cheguei ate a pensar em contratar um bandido 
para dar sumio em Josh quando voc no estivesse olhando. Contei a ela que, acima de todas as outras coisas, queria que voc se apaixonasse por mim.
- Uau - murmurei de novo.
Nossos lbios se uniram como se j tivssemos nos beijado mil vezes. A vida recomeava, nova em folha, e, dessa vez, eu iria fazer tudo certo. Todos os nervos de 
meu corpo pareciam estar formigando, e minha cabea dava a impresso de ter se desprendido do pescoo e comeado a flutuar. L estava Tim e l estava eu. No era 
preciso haver mais nada nem ningum. 
Quando Tim se afastou, somente a fora de seus braos me impediu de derreter inteirinha. Ele encostou de novo a testa na minha. - Ns vamos ter de ir devagar com 
isso. Quero que a gente comece do incio.
- Eu tambm - garanti a ele.
- E dessa vez tudo vai ser para valer - sem mentiras, sem fingimentos, sem faz-de-conta.
Meneei a cabea.
- Sem fingimentos. Mas me prometa que voc vai ficar por perto uns tempos.
- Decididamente, vou ficar por perto.
Meu sorriso foi to amplo que meu rosto parecia estar se partindo em dois.
Ele sorriu de volta para mim.
- E agora, ser que voc se interessaria por uma nova aula de mergulho?
- Adoraria, mas neste exato momento tenho outro compromisso. Devo a minha melhor amiga o melhor brunch que ela j comeu na vida.
Tim me abraou bem forte uma vez mais, depois me soltou. - Ento, v ficar com a Maggie. Vejo voc mais tarde.
Que palavras mais lindas. Vejo voc mais tarde.
Girei nos calcanhares e corri para o carro, sentindo-me mais como se estivesse caminhando sobre as guas que amassando areia fofa. E, depois de pedir muitas desculpas 
a Maggie, a vida seria perfeita. 
 
Dirio de Agradecimento de Sara - que passou a ser escrito com regularidade

Agradeo por estar com Tim - tanto, tanto, que seria capaz de encher um dirio inteiro apenas escrevendo essa frase zilhes de vezes.
Agradeo por papai estar finalmente saindo com algum - o nome dela e Tina e trabalha com tipografia. Gostei dela!
Agradeo o fato de mame estar se divertindo muito em Tquio.
Agradeo por Maggie vir passar uma semana inteira comigo na Flrida, durante as ferias de inverno. E Matt vem com ela!
Agradeo por ter crescido e amadurecido - agora, me preocupo tanto com a beleza interior quanto com a beleza exterior, sucesso e todas essas outras coisas.
Agradeo por estar com Tim. Ser que j disse isso? 




















Eplogo

Avancei sem dificuldade pelo solo ocenico, fascinada com a riqueza da vida que existe debaixo da gua. Ainda bem que acabei fazendo aquelas aulas de mergulho com 
Tim. Depois que tirei meu certificado, sou eu quem vive implorando a ele para vir mergulhar comigo.
Alguns metros mais alm, Tim se movimentava com leveza. Mesmo dentro da roupa de mergulho, ele  lindo. Lembranas de nossos beijos e das brincadeiras da noite anterior 
me encheram a mente. Continuo atordoada com o presente que Tim me deu alguns dias atrs. Pus a pequena escultura de meu rosto em uma posio de destaque no quarto. 
Quero que seja a primeira coisa a ser vista quando acordo e a ltima quando me deito.
Interrompi meus devaneios quando Tim se aproximou. Meu corao parou de novo. Ou disparou. Estava apavorada demais para precisar com exatido que tipo de reao 
seria, exatamente. Ali, bem ao lado dele, havia um pequeno tubaro. Meu pior pesadelo tinha se tornado realidade! Eu me achava encurralada a vrios metros abaixo 
da superfcie com um tubaro do lado! 
Observei atnita quando Tim estendeu a mo e afagou a lateral dele. Por um instante, fechei os olhos, apavorada, certa de que seria comida viva. Alis, falando nisso, 
tinha absoluta certeza de que seramos ambos engolidos vivos. Mas, quando me forcei a abrir as plpebras, mesmo que s um tantinho, vi que Tim sorria, por trs da 
mascara. O tubaro continuava a nadar preguiosamente em crculos, a volta de Tim, e ele me chamou com um gesto. Ah, no. Ele queria que eu tocasse naquilo. Tim 
chegou mais perto e pegou minha mo. Docemente, me puxou adiante. Aspirei uma boa dose de ar do meu cilindro. Se Tim considerava seguro tocar no tubaro, ento tinha 
de ser verdade.
Com a mo livre, toquei as costas dele. Era macia, fria e estranhamente bela. Quando tirei a mo, ainda espantada, o tubaro fez mais uma volta em torno de nos, 
depois foi embora, oceano afora.
Por trs da mascara, os olhos castanhos de Tim sorriam.
- Eu amo voc - ele enunciou.
- Eu tambm amo voc - respondi com um movimento dos lbios.
Acho que esse foi o momento em que compreendi o que amar de fato significa. Amar significa confiar, crescer e sentir-se segura. Tim e eu tnhamos isso tudo. E cada 
dia esse sentimento se fortalecia um pouco mais.
Nas profundezas do mar, Tim apertou minha mo e me puxou para perto. Quando nos abraamos, pensei que eu fosse transbordar de felicidade. Quer dizer, ento, que 
o amor de verdade era assim. Eu havia chegado a ultima parada de minha viagem rumo ao corao e, por algum motivo abenoado, tinha tido sorte o bastante para encontrar 
o paraso. 

Fim


Creditos: Gabi ,G .B ,Beatriz , Nat .
Comunidade : Digitalizaes de livros
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232
